Laboratórios de Criação - Informações Gerais

Destinados a projetos de Mestrado e Doutorado, os Laboratórios de Criação se centram no caráter inventivo das obras poéticas, narrativas e teóricas a serem apresentadas como dissertações e teses no Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP).

Norteia essa linha de pesquisa o empenho de investigação e inovação no campo do comparativismo, com a abertura de vertentes conceituais entre as várias literaturas, artes e áreas do saber.

As produções de narrativa e poesia apresentadas como dissertações e teses deverão ser acompanhadas de um ensaio, entre 20-30 páginas (mestrado) e 40-50 páginas (doutorado), relacionado com as trilhas propositivas, os procedimentos e os processos desenvolvidos na elaboração das obras literárias. Os trabalhos de conclusão de curso terão como eixo crítico-teórico o universo multidisciplinar proporcionado pelo comparativismo literário em língua portuguesa na atualidade.

As dissertações e teses dedicadas ao âmbito exclusivo da teoria deverão se orientar por investigações sobre projetos autorais e proposições críticas relativas aos repertórios da Literatura Comparada Contemporânea, sejam na abordagem e na apresentação de novas formas escriturais, sejam na análise e na formulação de metodologias referentes à criação de textos, reportáveis ou não a oficinas de produção literária. Em sintonia com o escopo transdisciplinar definidor da linha de pesquisa, mostra-se essencial uma perspectiva atualizada e abrangente, de modo a se imprimir um caráter inovador na escrita ensaística em torno das autorias e teorias.

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19 janeiro, 2021

Uma vida não chega

 

 por I.C. Copper

Jovem poeta e editor português, autor de Criolina para cavalo (2012). Atua na independente Traveller, dedicada especialmente à poesia. Muito estudado nos Laboratórios de Criação (FFLCH/USP), Copper recria no livro citado alguns motivos e sequências de Une saison en enfer, de Rimbaud. Selecionamos aqui alguns trechos de seu inédito Nelson ou Uma foda no limbo.

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Heaven in Hell, de I.C. Copper

  

Estás vivo

num sonho impossível

de que ninguém sabe.

 

Nefertiti visita Cartago e compra tudo.




***




Praia. Vêem-me só, circunspecto.

Difíceis

são os corpos em evidência.

Queima a tua luz

desejada

 – distante.

  



***




No silêncio pode haver

uma velocidade

que não a das pessoas. 

 



***




Alguns poetas

só percebem de poesia.

Sabem limpar uma planta, cozinhar

arroz.

Morrem de vergonha

de não saber

conversar.




***




Também é bom

desolhar.

Lentamente.

E desovar.




*** 




NATURALISTA

 

Sonhei que a mãe me tinha tirado e rasgado umas folhas que andava a escrever muito boas. Revolto-me, mesmo à frente do pai, que está a chegar, digo que me vou embora, parto copos que estavam no quarto, está lá a Maria, estou chocado e triste… a mãe diz que aquilo não era humano. Eu berro, «e O QUE É HUMANO? O que tens que pôr na cabeça…» falha-me a voz e acaba o sonho… «é que a literatura… pode não estar interessada no humano.»




*** 




Pinhal. Ao longe

um homem moto-

-serra árvores.

O cão todo negro

insubmisso

destruidor de brinquedos,

cheira as ervas ao sol.

Canas

incompreendidas

e servis.

 


Sentado a ler, arquivo pessoal do autor.



A pantera

 Fragmento do romance O som dos anéis de Saturno (Editora 7Letras), 

de Priscila Gontijo

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    É hoje. Chegou o grande dia. Hoje saio daqui. Doutor R. me deu alta. Oba!


    Ao menos, foi o que ele disse. O doutor medalha de bronze em salto ornamental. Tem uma foto dele metida num porta-retrato ordinário. Doutor R. com os filhos dando saltos mortais em alguma piscina estrangeira. Grande merda!


    Afinal vou sair. Quando se envelhece aqui dentro, a morte é oferecida pela instituição. Morrer sai mais barato. Não cria despesa para os familiares. Mas lá fora temos que pagar a conta. É só isso o que me preocupa. Sou adaptável, o médico medalha olímpica disse: você é muito adaptável. Se adaptou bem às normas da instituição. Então vou me adaptar bem às normas do mundo lá fora. Claro! Uma conclusão razoável. Quero levar algo. Esse quadro, por exemplo. Até hoje não entendo muito bem do que se trata, um círculo laranja dentro de outro círculo laranja e um ovo. Olhei tanto para esse círculo que não sei como viver fora dele.


    Afinal vou sair. Vou levar a camisola. Ele disse que posso. E a escova de dentes e o leite de rosas. Você, eu não posso levar. Isso ele não disse. Afinal ele não sabe. Ninguém aqui dentro sabe. É o nosso segredo. Como vou te alimentar lá fora? E onde você vai dormir? Lá fora, as panteras não andam pelas ruas. Elas ficam trancadas. Mas venho te visitar, prometo. E trago carne fresca.


    Lá fora tem a natureza. E as calçadas. As pessoas caminham pelas ruas apressadas, disso eu me lembro. Cada uma na sua caixa de fósforo com seu marido fósforo, filhos fósforos, cães e pássaros silvestres.


    E ainda existem as mulheres grávidas. E os bebês dentro de seus carrinhos com móbiles. Os bebês ficam levemente contrariados quando uma cabeça espia para dentro do carrinho sussurrando coisas. Estão atentos a tudo, meio arregalados.


    Os pais e as mães têm muito o que fazer, são ocupados. Eles têm um trabalho, um cargo, um ofício. E existem as roupas adequadas para cada cargo. Uniformes. E o arranha-céu, o trem, o metrô cheio e dizem até que eles se empurram, uns aos outros, para baixo do vão do metrô. Afinal uma pessoa só é considerada uma pessoa se adequada às normas sociais. E essa pessoa precisa chegar rápido ao prédio oficial com seu uniforme oficial e seu sorriso oficial. Alguém mais lento atrapalha a missão. É preciso cumprir o horário e as obrigações adequadamente. Decorar as tabelas, postar foto em rede social com regularidade e sorrir sem os dentes. Assim, você recebe seu salário no final do mês. Alguns fazem uma pequena economia para comprar um carro novo ou até uma casa nova. Ah, eles possuem um hobby para os finais de semana. Não é assim que se diz, hobby? Pôquer, xadrez, aulas de dança de salão, patins, remo, salto ornamental, meditação, yoga, pilates, aulas de mandarim. Eles compram utensílios made in China. Viu só como estou preparada?


    No final do dia, vou sair por aquela porta e não preciso mais voltar. Ao menos, foi o que ele disse. Nosso medalha de bronze. Vou usar uma roupa adequada, ter um cargo respeitável e correr apressada, empurrar as pessoas para baixo do vão do metrô, porque é um salve-se quem puder danado, e preciso me salvar, chegar a tempo para receber meu salário no final do mês e guardar dinheiro e ter uma casa, filhos com nomes como João Roberto e Maria Lúcia e um marido chamado Armando. E sem pantera. Apenas cão. Eles têm cães, eles não criam panteras. Entende, agora?


    São pessoas respeitáveis, ela diz. E Aurora viveu mais tempo que eu lá fora, ela sabe. Eu nem era uma pessoa quando cheguei aqui. Ao menos eu me sentia bem pequena. Não posso dizer que antes de chegar aqui eu era o que se poderia chamar de: uma pessoa.


    Quando eu sair, a primeira coisa que vou fazer é comprar uns óculos escuros iguais ao do Doutor R. Para não enxergar direito os vãos. E uns óculos de graus como os da doutora Raquel. Para enxergar muito bem os parques. E quero ter um de lentes azuis para os dias claros demais.


    A segunda coisa que vou fazer é comprar o tal cachorro. Ele vai ter o nome que todos os cachorros têm, algo como Bob, Max ou Sun, porque quero me adaptar rápido. É preciso iniciar com algo, não é? Então, já tenho o cão para a família que virá depois. Vai vir, vai vir.


    Ele diz que posso até ser professora, porque afinal gosto muito de ler, falo bem e gosto de crianças. Sou assim, articulada. É só continuar com a medicação e voltar a estudar. Mas a carta de recomendação é para ser secretária. Já é um começo. Pergunto: Doutor, como se começa aos 40 anos? Mas isso ele não responde, apenas pigarreia como um campeão em salto ornamental pigarreia. Em seguida, diz que é só atender telefonemas e ser educada.


    Eu sei ser educada.


    Não, aquilo não foi muito educado, mas já faz muito tempo. Eu ainda não tinha você.


    Nem era uma pessoa.


    Era selvagem e feroz.

 

 

 

 

14 dezembro, 2020

Curva

Fragmento da narrativa inédita Brilhante.Clítoris, de Ana Paula Ferraz

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Foto: Fernanda Salles


Num ensaio sobre Colette, Kathy Acker escreve que as mulheres estão sempre se tocando. Se tocando all the time. A frase não é dela, é da filósofa francesa Luce Irigaray (Ce sexe qui n’en est pas un). Deixa pra lá: as mulheres estão sempre se tocando all the time because os lábios vaginais se tocam, duplos. Questão anatômica.

Quando uma mulher sobe numa moto ela abre as pernas e permanece de pernas abertas toda a viagem. Toda a estrada. A mulher come a estrada. O asfalto é imediato. Assim como o vento. Assim como a barba.

A mulher na moto produz o vento. Quanto mais acelera, mais vento. Os eucaliptos replantados vão ficando cada vez mais para trás, passando de futuro para passado muito rapidamente. Está a três horas longe de casa. Cada vez mais longe de casa e mais ao centro. É um presente que não acaba.

Se para, acaba o vento. Não há vento em estado inerte, não nessa hora, nessa época do ano massas polares cobrem outros corpos, outros territórios. Ela para num mirante, curva da serra do Mar.  Ali embaixo é Santos? Bebe água. Uma cobra atravessa. Escamosa e sinuosa até que estica. A cobra é estrada. Medo nenhum da cobra, mas sim do ônibus de turismo queimando os freios. Toneladas de lataria na descida.

Segue mais adiante. Para novamente, agora para abastecer a moto. O cheiro de gasolina. Desce da moto e os lábios estão novamente colados. É uma mulher sem pressa. Toma um café na loja de conveniência e, do balcão, pelo vidro, tenta ler o muro da borracharia que esconde uma bananeira. Números. Fotografias. Propaganda eleitoral de alguma campanha local.

Segue a estrada de pernas semi-abertas e muito vento. Urgência de espaço. Velocidade sobre distância. A moto inteira entre as pernas. O motor nas mãos, pelo guidão. Controle. É preciso muita estrada.

Uma estrada que a faça cansar. Não era essa a rota. Ela queria o caminho do deserto.

 

 

 

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Educação Básica – Demonstrações


por Tiago Cfer

Autor da narrativa inédita Gradiente Spectrum, doutorou-se em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, FFLCH/USP.

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“Os assuntos mundiais giram em torno de uma chávena”, a supervisora de ensino me disse enquanto mexia o açúcar despejado na xícara de café. “Veja como a coisa toda cresce em volta disso”, ela faz um arco em torno de si mesma com a mão que segura a xicrinha suspensa no ar. “Que balé horroroso, meu deus!” Há anos repito isso em silêncio.

Da cozinha do prédio administrativo da educação estadual onde estávamos, eu observava seu gesto e imaginava as salas daquele prédio repletas de mesas, armários, papéis, máquinas e pessoas trabalhando. Uns sentados, outros circulando pelos corredores, indo ao banheiro, vindo à cozinha tomar água ou café como nós dois, a supervisora e eu, fazíamos nesse momento. Obviamente o movimento que compunha o vai-e-vem do trabalho nesse prédio não se reduzia à simplicidade (sentar – circular) que acabo de descrever. Há, sem dúvida, motivos menos evidentes. Por exemplo: o que uma supervisora de ensino pretende quando, logo depois de me dizer o que disse, dirige-se à janela da cozinha com a xicrinha ainda suspensa à altura do ombro e começa a piar para o bem-te-vi que pousou num galho do Flamboyant lá fora? Tem bastante tempo que me questiono sobre esse gesto que ela repete sempre na hora do café: a pronúncia de uma frase emblemática seguida de uma comunicação com os pássaros através da janela da pia. Aliás, os gestos automáticos são muito correntes entre servidores da educação pública. Isso devia ser melhor analisado. Mas quem ela pensa que é para se comunicar assim com pássaros, um autômato de maritaca? 

 

Daniel Richter, Das Recht, 2001


 

A propósito: o que é uma chávena?

Dizem que o termo “xícara” caiu em desuso em Portugal, aparecendo no léxico de nossos colonizadores apenas na literatura em romances do século XIX. No Brasil, ao fazermos uso desse termo, estaríamos utilizando um português arcaico. E se eu dissesse, no lugar da supervisora Custódia, nessa cozinha do prédio administrativo da educação estadual onde há um entra e sai sem fim de profissionais portando crachás com códigos que os associa às mais inimagináveis áreas do saber pedagógico: os assuntos mundiais giram em torno de uma xícara?

Na minha infância, antes de me iniciar no café, xícara estava mais relacionada àquele brinquedo de parque de diversões em quermesse. As crianças sentavam dentro de enormes xícaras dispostas em carrossel e as giravam, por uma barra central, buscando o máximo de velocidade. Quando o maquinista desligava o brinquedo, descíamos tontos, cambaleando, uns vomitando, outros caindo no chão de terra da praça, enquanto o público ao redor, que não havia participado da rodada, ria, apontava, divertia-se com a molecada grogue.

Seria esse espetáculo uma espécie de metonímia das tais “questões mundiais” que giram em torno de uma xícara?

 

 

 

 

 

 

 

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16 novembro, 2020

Fiação

por Carolina Zuppo Abed

(Poeta, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos 
Comparados/Laboratórios de Criação – Escrita de Literatura e Teoria)
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Os olhos não cansam se deixamos a vista vaguear com o correr da estrada. Mas, se focamos em uma árvore específica e tentamos acompanhar, o olhar vai e volta e se retorce e sentimos os nervos oculares cansados. É, talvez, nesses momentos, a única circunstância em que lembramos que temos uma coisa tão específica quanto nervos oculares. 

A deslizante luta contra o sono traz os repertórios mais inusitados. O dedo rola na tela. 

Figuras de Lichtenberg. Descargas elétricas em superfícies planas com alguma acidez e alguma umidade abrem caminhos ramificados, multidirecionais. O choque percorre a matéria (p. ex. uma tábua de madeira ou a pele humana) desenhando árvores sem folhas. 

O Google me disse como funciona, mas ainda não sei o que quer dizer. Sei como se forma, sei por que acontece, mas o que isso provoca em mim ainda me escapa. 

É no fim do dia, quando nada mais é dito, que o indizível das coisas se avoluma e cria sucessivas imagens por trás das pálpebras já fechadas. 

Pense numa estrada vicinal. Ao redor dela, pasto rasteiro. No começo você busca por um lago, um riacho, uma cerca. Árvores variadas, plantações, algum relevo. Fica à espera de qualquer curva que modifique a paisagem. Depois relaxa os ombros, um pouco frustrada, um pouco contente. Acostumada à extensão infinita da grama, indistinguível. 

A insistência das figuras recortadas no escuro dos olhos cerrados. 

Ao longo da BA-052, dando as costas para Salvador, as palmeiras cedem lugar a cactos interessantíssimos: altos e largos, começam por um caule, único, grosso, que se desdobra tal como galhos, de modo que, vistos de longe, poderia se pensar mesmo que se trata de árvores secas e gordas. Mais curioso ainda: o tronco central se resseca, racha, perde os espinhos e se traveste todo de casca marrom. 

O tempo tem outro andamento quando estamos de olhos abertos? 

Criar um circuito de alta voltagem com um transformador, fio de cobre e dois terminais, um de cada lado de uma mesa rústica de madeira. As figuras que a eletricidade esculpe no tampo não chegam a se encostar. Essa é a metáfora perfeita – e, portanto, invariavelmente cafona. 

Quanto da existência se transforma ao atravessar uma noite bem dormida? O sono do adulto é diferente do da criança, acho. 

Ao cacto comestível chamam “palma”, e no paladar é algo como comer um pimentão refogado no dendê. Há mais de 350 espécies conhecidas de plantas alimentícias não convencionais que não frequentam os nossos pratos. É difícil dar espaço para o que não sabemos nomear. 

Os olhos enxergam melhor abertos ou fechados? Ver na memória, ver na retina. As diferenças são óbvias; a resposta, não. 

Evgen Bavcar, fotógrafo cego, perdeu a visão de um olho por vez, em dois acidentes ocorridos num curto espaço de tempo. O esquerdo foi perfurado por um galho de árvore, o direito foi atingido por um detonador de minas. O artista só conhece seu trabalho pela descrição dos outros. “Narciso morreu afogado porque não compreendeu que entre ele e a imagem existe a água. Eu sei que entre mim e a imagem há o mundo, há a palavra dos outros, uma grande distância.” 

A privação voluntária do sono – será uma forma de passar o tempo ou de capturá-lo? 

Quando criança, rabiscava árvores com galhos secos e raízes imensas que se confundiam pela página toda. Eram apenas riscos ondulados se ramificando e espraiando para cima e para baixo, em diagonal a partir do centro, onde um tronco mínimo amparava todo o emaranhamento. 

Às vezes nos esquecemos de piscar. Em geral, diante de palavras ou imagens em movimento. Nesses casos, ou em situações de choro, fazem-se pequenos veios vermelhos no branco dos olhos. Recomenda-se: colírio, parcimônia ou o álcool potável favorito, conforme seja o caso. 

Muitos cegos de Lisboa não têm olhos, conservam apenas suas cavidades. O motivo disso permanece tópico de especulação. 

Minha arteterapeuta me disse que a árvore representa a vida: as raízes sendo a sustentação, aquilo que nos nutre; a copa como forma de se relacionar com o mundo e o tronco fazendo o meio de campo entre uma coisa e outra. 

Com frequência leio textos dos quais só entendo cerca de 30% e tenho a sensação de que o resto nunca parará de ser lentamente absorvido até o dia em que eu perder a capacidade cognitiva. 

Recentemente aprendi que as árvores são tão grandes para baixo quanto são para cima: se não encontram espaço para aprofundar as raízes, também não se aventuram demais para o alto. 

- bicho geográfico 
- rachaduras na parede 
- pés rompidos como um solo agreste 
- o solo agreste 
- filete de água num leito seco OU na praia, após as chuvas vemos o caminho das poças para o mar 
- rizoma: botânica/filosofia 
- o reflexo luminoso na superfície ondulada de uma piscina (não está imóvel) 
- neurônios 

Faz pouco tempo que descobri o pássaro da madrugada. Toda noite, por volta das três horas, ele canta na minha janela, talvez sabendo que eu estou acordada. 

A mata atlântica é cíclica: as suas árvores vivem mais ou menos 500 anos e então tombam, porque encontram um solo de pedra que impede as raízes de se aprofundarem (mas continuam crescendo fora da terra). Floresta de Ícaros verdes. Assim me contaram. 

O que pode o sono diante da profusão da linguagem?
 

Paisagens Substantivas

por Anderson Lucarezi

(Poeta, mestre em Letras Estrangeiras e Tradução - FFLCH/USP)
                                                                                                                                __________




PAISAGEM ABORTADA.

 

grafite sob pixo: dignidade DRAG QUEEN,

(desafio [não fosse publicidade] ao mundo

exterior à liberdade das cadeias, onde,

dizem as trans, pode-se ser quem se é)

o rosto-madona desvela: ventre (saco) aberto,

plástico, debaixo do viaduto: rumo à sarjeta,

o chorume – imprime – à calçada – um mapa

à semelhança da América do Sul,

paisagem pronta para o saque.

aceito débito, algum humor, até,

luzes no abismo | H-O-T-E-L |

houvesse tempo, não fosse o trovão:

enxurra – súbito – a chuva,

voragem violadora, empantana,

inteira, a cidade, explicita,

como faz o retesar de boca

daquele pedestre, os rápidos

de veneno, correntes da célula ao céu.

 

PAISAGEM ÁVIDA.

 

colunas sustentam o estertor da cidade.

elevado / degradado – o viaduto

por cima do cenário.

“cinza” não dá conta; diga-se “gris”,

por ressoar o ranger de dentes,

grito dos | GRAFISMOS | sobre concreto áspero:

é a raiva da ralé da metrópole.

 

murais >>> expressos >>> gráficos cobrem prédios,

brada – a drag – braços abertos

até o término do contrato cobri-la de tinta.

não fosse obsoleto versar corações,

diria ser >> este << grafite pixado.

o arco-íris, feito pincel, guirlanda o halo

ao redor do bairro queer cult,

reduto de orgânicos, QR codes,

pink money, gag the fag (no APP) – e ali

sibila, suspensa, à janela, a jiboia

variegata!, wannabe cipó

que traga machos pra furar a quarentena,

é o desejo daquele morador

interdito pelo medo do cancelamento.

 

(...)

 

PAISAGEM CHORADA.

 

aquilo de temperança na palavra altitude,

zona de neblina aos casais no fluxo

/ subida – fondueselfie – sexo – so long /

alheios à paragem  (não esquecer,

é no Alto do Lajeado, desterro telúrico,    

que as coisas acontecem)

e ao fato de seu nome, Mantiqueira,

 gravura da realidade imediata,

por exemplo:  chora, a serra, na estrada,

a efemeridade das hortênsias, terra,

deslizamento, geomância, resposta,

talvez, a que será de tudo.

 

Campos do Jordão, 2019


Colagem: Dhyogo Oliveira

19 outubro, 2020

Diário de Carolina

por Elisabeth Guimarães

(Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos 
Comparados/Laboratórios de Criação – Escrita de Literatura e Teoria) 

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Ele se adianta e puxa a cadeira. Não manda flores, mas puxa a cadeira. São duas. Aquela à minha direita serve de apoio. Numa fresta de asfalto do tamanho exato e suficiente, fica presa e faz a vez de alavanca. Viva. Minha cúmplice trabalhando para que o acaso se mantenha sustentado. A outra, à minha esquerda, demando em juízo. Fardado, ele a quer como inimiga. Eu a quero como patrimônio público humanizado em ocupação.

Geraldo Alckmin. Reorganização escolar. Fechamento de 94 unidades. As salas do Fernão estão lotadas. Mais de 40 estudantes por sala. Essa é a medida do governo para reduzir gastos, reunir o maior número de alunos numa só sala. A ideia é aprovar o maior número de estudantes o mais rápido possível, gastando o mínimo possível.

Ele puxa; eu a defendo com a força da causa. O que é uma cadeira? Não falo de definição. Falo de conceito. O conceito imanente da cadeira. Ele puxa. Eu contesto. Um cabo de guerra? Não. Não se trata disso. Isso não nos interessa. Teoricamente, não teria como medir força com ele. Ele puxa. Eu replico.

As aulas de Física não foram suficientes. Não saberia calcular a força/tração daquele embate. Um par de forças iguais e contrárias? No caso, forças desiguais e contrárias. Segunda Lei de Newton? Não sei dizer. O Estado está em dívida com a Educação. Ele puxa. Eu contra-argumento. Dissertação materializada? Braços e pernas se confundem. Por um segundo, o jornalista teria perdido o clique.

E o governo diz para a sociedade que a reorganização escolar é uma medida pedagógica. Que isso vai melhorar a qualidade do ensino público. Não! Se o governador quer adotar uma medida pedagógica, ele tem que construir essa ideia com os estudantes e as estudantes, com os professores e as professoras, com os especialistas e as especialistas. Ele não pode simplesmente instituir uma medida autoritária como essa. Reorganização escolar? A decisão saiu nos jornais. Não fomos consultados; não pudemos opinar.

Enquanto colegas tentam convencer a polícia de que temos direito à manifestação pública, disputo a cadeira com o fardado. Eu, minoria? Nem mesmo, enquanto ele puxa a cadeira à minha esquerda. Minhas mãos são múltiplas, milhares. Muitos/minoria. Minoria como potência de um devir, como política de acontecimento, de multidão. De acordo com nosso professor de Filosofia, potencialmente, minoria é  respiração vital da maioria. No momento em que demando a essência da luta, sou respiração vital secundarista. Ele puxa. Potencialmente, acredito em resistência. Isso é tudo o que move minha ação.

Ele apela para a força; quer raciocinar. Eu conceituo a cadeira. Prefiro sensibilizar. De longe, observo manifestantes apanhando da polícia. A visão de um amigo sendo preso me surpreende, mas não me distrai. A parte frontal do corpo de Felipe está voltada para baixo. Um policial segura a perna esquerda dele, outro, a direita. Um terceiro, segura o braço esquerdo, outro, o direito. Enquanto caminham em direção ao camburão, o corpo de Felipe se move em desacato; esperneia. Quero ir até ele, mas não posso. Ana e Fernando entram no meu campo de visão; estão acompanhando a prisão de meu amado amigo. Foco, Carolina! Você quer a posse das duas cadeiras, em nome de todos e todas secundaristas.

Quando a cadeira que serve de alavanca se desprende da fresta no asfalto, quando a tração exercida é maior do que posso calcular, a alavanca viva improvisada pelo acaso se desfaz, e toda força investida pelo fardado retorna contra mim.

Agora sei. Agora aprendi. Velocidade. Vetor. O sentido e a razão entre a variação da distância e a variação correspondente do tempo de um corpo em movimento. Agora aprendi na prática para que servem as aulas de Física. Deslocamento experimentado de tal maneira que perco a segunda cadeira para ele. Fardado. Fadado ao fracasso. Força bruta treinada.

Perdi o patrimônio público para ele? Não acredito. A cadeira que servia de alavanca ficou comigo. A outra ele a atirou para longe. E os jornais dizem que depredamos patrimônio público. O fardado/fadado ao fracasso das forças militares não executou a reintegração de posse da cadeira nem das escolas. Ele a atirou para longe. Antes do clique, durante as ocupações das salas de aula, das escolas, das ruas. Desde o tempo que nos enviam flores. Tarde demais. Nos velórios.

 

Presença

 

por Felipe Souza

(Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos 
Comparados/Laboratórios de Criação – Escrita de Literatura e Teoria)

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E logo depois de acordar, de fixar bem os olhos a sua frente, a cortesia do Divórcio lhe mostrará suas novas instalações. Um cômodo com oito ou nove metros quadrados será para ele agora o dormitório, a sala de reuniões, o escritório, o quartinho das visitas e, por que não, a copa. Só não será também o banheiro e a cozinha por meras questões de ordem higiênica que até mesmo os divorciados insistem em ter. Será tudo muito prático – lhe mostrará o anfitrião – qualquer visita (se elas ainda existirem, o Divórcio não costuma ser muito simpático às visitas) poderá conhecer a sua nova habitação em apenas alguns passos. Vejam ali a cama, vejam ali o guarda-roupas, vejam ali a escrivaninha. Poderão haver molduras também. Você sempre não sonhou com uma casa com jardim? Pois bem, fique à vontade, poderá pregar um Monet imenso naquela parede dos fundos (uma reprodução das mais baratas, é claro). Pregar não, colar. Os pregos danificam o imóvel e é sempre bom lembrar que o quarto é alugado.

(...) 

E às três da manhã, o Divórcio te cutucará no ombro esquerdo e te lembrará que agora você não dorme mais, que tuas pálpebras já não fecham e que já adquiriram cor de carne cozida. E às três da manhã, a Ansiedade te dará um choque elétrico nos dedos dos pés e te fará lembrar que já não há mais possibilidade de repouso. Tuas pernas já foram adaptadas para não pararem mais. Mesmo quando você insistir em deitar, porque afinal é noite, está escuro, e houve um tempo em que nessas condições você costumava se deitar para dormir, mesmo assim, tuas pernas se mexerão tresloucadas, sem destino, sem propósito, apenas porque já não podem ficar paradas. Às três da manhã, o Divórcio lhe sussurrará docemente na porta de teu ouvido e cada palavra sussurrada pelo Divórcio lhe soará como um mantra: Cecília não se lembrará mais de você! Você não vai acompanhar Cecília crescer! Cecília chamará Tião de pai! E você se lembrará de que viu em algum lugar, num daqueles programas dominicais que só pessoas como você assistem, que a memória é algo que só é desenvolvida de todo a partir dos 3 anos, e que antes disso não nos lembramos de nada, é tudo um grande e infinito vazio, o mesmo vazio, o Divórcio te fará crer, que você vai se transformar para Cecília. E logo você será apenas um estranho no porta-retratos, se ainda houver porta-retratos, porque tamanha deve ser a determinação de Silvana em apagar qualquer vestígio teu, que logo há de queimar cada fotografia. E depois de te dizer isso, o Divórcio, terno como um pai, te dará um beijo na testa e ajeitará tua coberta. Dará dois ou três passos em direção à porta, com a intenção de te deixar um pouco em privacidade, só você e a Ansiedade, mas você já se afeiçoou a Ele e implorará para que Ele fique. A cama é pequena, mas se apertarem bem, é provável que caibam os três. E assim, com o Divórcio sentado na cama, ao teu lado esquerdo, te olhando com um sorriso eterno no rosto, e com a Ansiedade aninhada aos teus pés, os dois velando cada hora de seu desespero noturno, você manterá o olhar sempre fixo no teto mofado, esperando a manhã chegar, tentando imaginar no que Cecília estaria sonhando naquele momento.

(...)

E o bar será sua segunda casa, seu “Bar, doce lar” como seus amigos dirão – os que ainda restarem, se é que restará algum, já que o Divórcio não costuma tolerar concorrentes. E quando você estiver no bar, tarde da noite, só mais dois ou três velhos palitando dentes ou cantarolando boleros, quando as portas já estiverem baixadas e o dono bigodudo começar a te olhar de modo insinuante, como quem diz ou fode ou sai de cima, o Divórcio sentará ao seu lado e pedirá uma cerveja e encherá o seu copo e o dele. Gentil como ele só, encherá o seu primeiro. Entre uma bebericada e outra, Ele lhe dirá coisas, lhe aconselhará a ficar o máximo tempo possível naquele bar, porque absolutamente qualquer outro lugar do mundo (e o Divórcio até deixará escapar um pouco de saliva ao lhe lembrar disso) será melhor do que aquele seu quarto alugado, de paredes mal pintadas, mobiliado apenas com aquela sua patética cama-box de solteiro, do guarda-roupa meio mofado de duas portas e de uma reprodução já meio amarelada de um dos quadros mais amarelados de Van Gogh. E você virará aquele copo e o próximo e pedirá outra garrafa (porque o Divórcio lhe ensinará muitas e impensáveis coisas, entre elas beber, mas beber mesmo, quantas garrafas forem preciso, e sem fazer aquela sua tradicional cara de recém-nascido tomando remédio) e beberá até a companhia do Divórcio lhe parecer aceitável, tolerável, por que não dizer desejável? Mas você precisará tomar cuidado, bastante cuidado, porque depois da sétima ou oitava garrafa será você quem vai cantarolar o bolero e pedirá um copo para cada um dos velhos, chamará o dono bigodudo para beber com vocês, abrindo para isso o seu melhor sorriso. Buscando esticar o tempo até o fiapo, especulará com eles sobre a genealogia dos hebreus, a mecânica dos helicópteros ou a qualidade das hortaliças e, ao menor sinal de hesitação do bigodudo, você passará a propor coisas, seduzi-los com partidas de sinuca (de xadrez, quem sabe). E assim que o dono do bar rumar praguejante em direção à porta, a chave em riste, você ouvirá as primeiras notas do tema de abertura do filme noir que nesse momento vai começar (na TV que nunca é desligada, logo acima da geladeira de refrigerantes), lhe lembrando que é noite, que você está num bar sujo e que ninguém, absolutamente ninguém, te espera em casa.