Fragmento do romance O som dos anéis de Saturno (Editora 7Letras),
de Priscila Gontijo
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É hoje. Chegou o grande dia. Hoje saio daqui. Doutor R. me
deu alta. Oba!
Ao menos, foi o que ele disse. O doutor medalha de bronze em
salto ornamental. Tem uma foto dele metida num porta-retrato ordinário. Doutor
R. com os filhos dando saltos mortais em alguma piscina estrangeira. Grande
merda!
Afinal vou sair. Quando se envelhece aqui dentro, a morte é
oferecida pela instituição. Morrer sai mais barato. Não cria despesa para os
familiares. Mas lá fora temos que pagar a conta. É só isso o que me
preocupa. Sou adaptável, o médico medalha olímpica disse: você é muito
adaptável. Se adaptou bem às normas da instituição. Então vou me adaptar
bem às normas do mundo lá fora. Claro! Uma conclusão razoável. Quero levar
algo. Esse quadro, por exemplo. Até hoje não entendo muito bem do que se
trata, um círculo laranja dentro de outro círculo laranja e um ovo. Olhei
tanto para esse círculo que não sei como viver fora dele.
Afinal vou sair. Vou levar a camisola. Ele disse que posso. E
a escova de dentes e o leite de rosas. Você, eu não posso levar. Isso ele
não disse. Afinal ele não sabe. Ninguém aqui dentro sabe. É o nosso segredo.
Como vou te alimentar lá fora? E onde você vai dormir? Lá fora, as panteras
não andam pelas ruas. Elas ficam trancadas. Mas venho te visitar, prometo. E
trago carne fresca.
Lá fora tem a natureza. E as calçadas. As pessoas caminham
pelas ruas apressadas, disso eu me lembro. Cada uma na sua caixa de fósforo
com seu marido fósforo, filhos fósforos, cães e pássaros silvestres.
E ainda existem as mulheres grávidas. E os bebês dentro de
seus carrinhos com móbiles. Os bebês ficam levemente contrariados quando uma
cabeça espia para dentro do carrinho sussurrando coisas. Estão atentos a
tudo, meio arregalados.
Os pais e as mães têm muito o que fazer, são ocupados.
Eles têm um trabalho, um cargo, um ofício. E existem as roupas adequadas para
cada cargo. Uniformes. E o arranha-céu, o trem, o metrô cheio e dizem até
que eles se empurram, uns aos outros, para baixo do vão do metrô. Afinal uma
pessoa só é considerada uma pessoa se adequada às normas sociais. E essa
pessoa precisa chegar rápido ao prédio oficial com seu uniforme oficial e seu
sorriso oficial. Alguém mais lento atrapalha a missão. É preciso cumprir o
horário e as obrigações adequadamente. Decorar as tabelas, postar foto em
rede social com regularidade e sorrir sem os dentes. Assim, você recebe
seu salário no final do mês. Alguns fazem uma pequena economia para comprar
um carro novo ou até uma casa nova. Ah, eles possuem um hobby para os
finais de semana. Não é assim que se diz, hobby? Pôquer,
xadrez, aulas de dança de salão, patins, remo, salto ornamental, meditação,
yoga, pilates, aulas de mandarim. Eles compram utensílios made in China.
Viu só como estou preparada?
No final do dia, vou sair por aquela porta e não preciso
mais voltar. Ao menos, foi o que ele disse. Nosso medalha de bronze. Vou
usar uma roupa adequada, ter um cargo respeitável e correr apressada, empurrar
as pessoas para baixo do vão do metrô, porque é um salve-se quem puder
danado, e preciso me salvar, chegar a tempo para receber meu salário no final
do mês e guardar dinheiro e ter uma casa, filhos com nomes como João Roberto
e Maria Lúcia e um marido chamado Armando. E sem pantera. Apenas cão.
Eles têm cães, eles não criam panteras. Entende, agora?
São pessoas respeitáveis, ela diz. E Aurora viveu mais tempo
que eu lá fora, ela sabe. Eu nem era uma pessoa quando cheguei aqui. Ao menos
eu me sentia bem pequena. Não posso dizer que antes de chegar aqui eu era o que se poderia chamar de: uma pessoa.
Quando eu sair, a primeira coisa que vou fazer é comprar uns
óculos escuros iguais ao do Doutor R. Para não enxergar direito os vãos. E
uns óculos de graus como os da doutora Raquel. Para enxergar muito bem os
parques. E quero ter um de lentes azuis para os dias claros demais.
A segunda coisa que vou fazer é comprar o tal cachorro. Ele
vai ter o nome que todos os cachorros têm, algo como Bob, Max ou Sun, porque
quero me adaptar rápido. É preciso iniciar com algo, não é? Então, já
tenho o cão para a família que virá depois. Vai vir, vai vir.
Ele diz que posso até ser professora, porque afinal gosto
muito de ler, falo bem e gosto de crianças. Sou assim, articulada. É só
continuar com a medicação e voltar a estudar. Mas a carta de recomendação
é para ser secretária. Já é um começo. Pergunto: Doutor, como se começa
aos 40 anos? Mas isso ele não responde, apenas pigarreia como um campeão em
salto ornamental pigarreia. Em seguida, diz que é só atender telefonemas e
ser educada.
Eu sei ser educada.
Não, aquilo não foi muito educado,
mas já faz muito tempo. Eu ainda não tinha você.
Nem era uma pessoa.
Era selvagem e feroz.
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