Laboratórios de Criação - Informações Gerais

Destinados a projetos de Mestrado e Doutorado, os Laboratórios de Criação se centram no caráter inventivo das obras poéticas, narrativas e teóricas a serem apresentadas como dissertações e teses no Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP).

Norteia essa linha de pesquisa o empenho de investigação e inovação no campo do comparativismo, com a abertura de vertentes conceituais entre as várias literaturas, artes e áreas do saber.

As produções de narrativa e poesia apresentadas como dissertações e teses deverão ser acompanhadas de um ensaio, entre 20-30 páginas (mestrado) e 40-50 páginas (doutorado), relacionado com as trilhas propositivas, os procedimentos e os processos desenvolvidos na elaboração das obras literárias. Os trabalhos de conclusão de curso terão como eixo crítico-teórico o universo multidisciplinar proporcionado pelo comparativismo literário em língua portuguesa na atualidade.

As dissertações e teses dedicadas ao âmbito exclusivo da teoria deverão se orientar por investigações sobre projetos autorais e proposições críticas relativas aos repertórios da Literatura Comparada Contemporânea, sejam na abordagem e na apresentação de novas formas escriturais, sejam na análise e na formulação de metodologias referentes à criação de textos, reportáveis ou não a oficinas de produção literária. Em sintonia com o escopo transdisciplinar definidor da linha de pesquisa, mostra-se essencial uma perspectiva atualizada e abrangente, de modo a se imprimir um caráter inovador na escrita ensaística em torno das autorias e teorias.

16 novembro, 2020

Paisagens Substantivas

por Anderson Lucarezi

(Poeta, mestre em Letras Estrangeiras e Tradução - FFLCH/USP)
                                                                                                                                __________




PAISAGEM ABORTADA.

 

grafite sob pixo: dignidade DRAG QUEEN,

(desafio [não fosse publicidade] ao mundo

exterior à liberdade das cadeias, onde,

dizem as trans, pode-se ser quem se é)

o rosto-madona desvela: ventre (saco) aberto,

plástico, debaixo do viaduto: rumo à sarjeta,

o chorume – imprime – à calçada – um mapa

à semelhança da América do Sul,

paisagem pronta para o saque.

aceito débito, algum humor, até,

luzes no abismo | H-O-T-E-L |

houvesse tempo, não fosse o trovão:

enxurra – súbito – a chuva,

voragem violadora, empantana,

inteira, a cidade, explicita,

como faz o retesar de boca

daquele pedestre, os rápidos

de veneno, correntes da célula ao céu.

 

PAISAGEM ÁVIDA.

 

colunas sustentam o estertor da cidade.

elevado / degradado – o viaduto

por cima do cenário.

“cinza” não dá conta; diga-se “gris”,

por ressoar o ranger de dentes,

grito dos | GRAFISMOS | sobre concreto áspero:

é a raiva da ralé da metrópole.

 

murais >>> expressos >>> gráficos cobrem prédios,

brada – a drag – braços abertos

até o término do contrato cobri-la de tinta.

não fosse obsoleto versar corações,

diria ser >> este << grafite pixado.

o arco-íris, feito pincel, guirlanda o halo

ao redor do bairro queer cult,

reduto de orgânicos, QR codes,

pink money, gag the fag (no APP) – e ali

sibila, suspensa, à janela, a jiboia

variegata!, wannabe cipó

que traga machos pra furar a quarentena,

é o desejo daquele morador

interdito pelo medo do cancelamento.

 

(...)

 

PAISAGEM CHORADA.

 

aquilo de temperança na palavra altitude,

zona de neblina aos casais no fluxo

/ subida – fondueselfie – sexo – so long /

alheios à paragem  (não esquecer,

é no Alto do Lajeado, desterro telúrico,    

que as coisas acontecem)

e ao fato de seu nome, Mantiqueira,

 gravura da realidade imediata,

por exemplo:  chora, a serra, na estrada,

a efemeridade das hortênsias, terra,

deslizamento, geomância, resposta,

talvez, a que será de tudo.

 

Campos do Jordão, 2019


Colagem: Dhyogo Oliveira

 

 

 

 

 

Página inicial do site Lápis Laboratórios de Criação:

https://www.lapislaboratorio.site/

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