Laboratórios de Criação - Informações Gerais

Destinados a projetos de Mestrado e Doutorado, os Laboratórios de Criação se centram no caráter inventivo das obras poéticas, narrativas e teóricas a serem apresentadas como dissertações e teses no Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP).

Norteia essa linha de pesquisa o empenho de investigação e inovação no campo do comparativismo, com a abertura de vertentes conceituais entre as várias literaturas, artes e áreas do saber.

As produções de narrativa e poesia apresentadas como dissertações e teses deverão ser acompanhadas de um ensaio, entre 20-30 páginas (mestrado) e 40-50 páginas (doutorado), relacionado com as trilhas propositivas, os procedimentos e os processos desenvolvidos na elaboração das obras literárias. Os trabalhos de conclusão de curso terão como eixo crítico-teórico o universo multidisciplinar proporcionado pelo comparativismo literário em língua portuguesa na atualidade.

As dissertações e teses dedicadas ao âmbito exclusivo da teoria deverão se orientar por investigações sobre projetos autorais e proposições críticas relativas aos repertórios da Literatura Comparada Contemporânea, sejam na abordagem e na apresentação de novas formas escriturais, sejam na análise e na formulação de metodologias referentes à criação de textos, reportáveis ou não a oficinas de produção literária. Em sintonia com o escopo transdisciplinar definidor da linha de pesquisa, mostra-se essencial uma perspectiva atualizada e abrangente, de modo a se imprimir um caráter inovador na escrita ensaística em torno das autorias e teorias.

14 dezembro, 2020

Educação Básica – Demonstrações


por Tiago Cfer

Autor da narrativa inédita Gradiente Spectrum, doutorou-se em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, FFLCH/USP.

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“Os assuntos mundiais giram em torno de uma chávena”, a supervisora de ensino me disse enquanto mexia o açúcar despejado na xícara de café. “Veja como a coisa toda cresce em volta disso”, ela faz um arco em torno de si mesma com a mão que segura a xicrinha suspensa no ar. “Que balé horroroso, meu deus!” Há anos repito isso em silêncio.

Da cozinha do prédio administrativo da educação estadual onde estávamos, eu observava seu gesto e imaginava as salas daquele prédio repletas de mesas, armários, papéis, máquinas e pessoas trabalhando. Uns sentados, outros circulando pelos corredores, indo ao banheiro, vindo à cozinha tomar água ou café como nós dois, a supervisora e eu, fazíamos nesse momento. Obviamente o movimento que compunha o vai-e-vem do trabalho nesse prédio não se reduzia à simplicidade (sentar – circular) que acabo de descrever. Há, sem dúvida, motivos menos evidentes. Por exemplo: o que uma supervisora de ensino pretende quando, logo depois de me dizer o que disse, dirige-se à janela da cozinha com a xicrinha ainda suspensa à altura do ombro e começa a piar para o bem-te-vi que pousou num galho do Flamboyant lá fora? Tem bastante tempo que me questiono sobre esse gesto que ela repete sempre na hora do café: a pronúncia de uma frase emblemática seguida de uma comunicação com os pássaros através da janela da pia. Aliás, os gestos automáticos são muito correntes entre servidores da educação pública. Isso devia ser melhor analisado. Mas quem ela pensa que é para se comunicar assim com pássaros, um autômato de maritaca? 

 

Daniel Richter, Das Recht, 2001


 

A propósito: o que é uma chávena?

Dizem que o termo “xícara” caiu em desuso em Portugal, aparecendo no léxico de nossos colonizadores apenas na literatura em romances do século XIX. No Brasil, ao fazermos uso desse termo, estaríamos utilizando um português arcaico. E se eu dissesse, no lugar da supervisora Custódia, nessa cozinha do prédio administrativo da educação estadual onde há um entra e sai sem fim de profissionais portando crachás com códigos que os associa às mais inimagináveis áreas do saber pedagógico: os assuntos mundiais giram em torno de uma xícara?

Na minha infância, antes de me iniciar no café, xícara estava mais relacionada àquele brinquedo de parque de diversões em quermesse. As crianças sentavam dentro de enormes xícaras dispostas em carrossel e as giravam, por uma barra central, buscando o máximo de velocidade. Quando o maquinista desligava o brinquedo, descíamos tontos, cambaleando, uns vomitando, outros caindo no chão de terra da praça, enquanto o público ao redor, que não havia participado da rodada, ria, apontava, divertia-se com a molecada grogue.

Seria esse espetáculo uma espécie de metonímia das tais “questões mundiais” que giram em torno de uma xícara?

 

 

 

 

 

 

 

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