Laboratórios de Criação - Informações Gerais

Destinados a projetos de Mestrado e Doutorado, os Laboratórios de Criação se centram no caráter inventivo das obras poéticas, narrativas e teóricas a serem apresentadas como dissertações e teses no Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP).

Norteia essa linha de pesquisa o empenho de investigação e inovação no campo do comparativismo, com a abertura de vertentes conceituais entre as várias literaturas, artes e áreas do saber.

As produções de narrativa e poesia apresentadas como dissertações e teses deverão ser acompanhadas de um ensaio, entre 20-30 páginas (mestrado) e 40-50 páginas (doutorado), relacionado com as trilhas propositivas, os procedimentos e os processos desenvolvidos na elaboração das obras literárias. Os trabalhos de conclusão de curso terão como eixo crítico-teórico o universo multidisciplinar proporcionado pelo comparativismo literário em língua portuguesa na atualidade.

As dissertações e teses dedicadas ao âmbito exclusivo da teoria deverão se orientar por investigações sobre projetos autorais e proposições críticas relativas aos repertórios da Literatura Comparada Contemporânea, sejam na abordagem e na apresentação de novas formas escriturais, sejam na análise e na formulação de metodologias referentes à criação de textos, reportáveis ou não a oficinas de produção literária. Em sintonia com o escopo transdisciplinar definidor da linha de pesquisa, mostra-se essencial uma perspectiva atualizada e abrangente, de modo a se imprimir um caráter inovador na escrita ensaística em torno das autorias e teorias.

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14 dezembro, 2020

Literatura em colisão: (tele)visões


por Felipe Souza

(Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos 
Comparados/Laboratórios de Criação – Escrita de Literatura e Teoria)

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A TV é irremissível; está sempre ligada, mesmo quando está desligada.

(Avital Ronell. Trauma TV)


Tendo invadido o microcosmo doméstico depois da II Guerra, sendo “servida na travessa da Guerra Fria”, como coloca Avital Ronell (1994, p. 308), a televisão “está ligada de maneira crucial ao enigma da sobrevivência”, reelaborando na tela uma tessitura de “experiências quebradas e memórias redirecionadas”. Nesse contexto, a televisão não age de modo a registrar, mas prefere, de outro modo, “encenar os mitos da vivência, da cor viva e do estar presente”, produzindo assim “uma perspectiva contrafóbica para uma história interrompida”, atuando como “amortecedor de choques para a incompreensibilidade da sobrevivência” (ibid). 


Mirage Stage, de Nam June Paik (Foto: Kristina García / Museo Reina Sofia)


David Foster Wallace, tendo em perspectiva a presença do televisivo nos Estados Unidos, dirá que a televisão “identifica, suga e então reapresenta o que imagina que a cultura americana quer ver e ouvir sobre si mesma”, e conclui, “se quisermos saber o que é a normalidade americana – o que os americanos querem ver como normal – podemos confiar na televisão” (1998, p. 151-152). No contexto latino-americano, Martín-Barbero e Rey dialogam com Wallace ao concluírem que a televisão “se converte em uma reivindicação fundamental das comunidades regionais e locais, em sua luta pelo direito à construção de sua própria imagem, que se confunde com o direito à sua memória” (2004, p. 35). 


Ao falarem especificamente sobre a telenovela, Martín-Barbero e Rey afirmam que esse tipo de produção “tem a propriedade de revelar a cartografia dos sentimentos tanto como as tensões do social, as propriedades da imaginação cultural como as aspirações secretas e explícitas das pessoas que a acompanham com fervor” (p. 174), mais uma vez nos levando a crer, junto com Avital Ronell e David Foster Wallace, que o estudo da cultura televisiva de um país é bastante revelador de seu ethos, sendo, portanto, matéria muito rica a ser tecida por uma literatura interessada no todo social, o qual é “dado como imagem, em cadeia nacional, atrelado a um pacto comunicacional a envolver ficções e visões de realidade”, conforme apontado por Maurício Salles Vasconcelos.[1]

O vínculo entre literatura e audiovisual encontra apoio em Agustín Fernández Mallo, que chamará a atenção para as redefinições pelas quais passam as narrativas contemporâneas, num contexto de intensa globalização e de alta tecnologia, em que uma literatura unicamente centrada no signo escrito e no suporte livro se expande e torna-se “móvel”, numa inter-relação com outras linguagens e mídias. 

A apropriação do discurso televisivo pela literatura encontra grande espaço no contexto brasileiro – nos diz Mauricio Salles Vasconcelos – com seu império de narrativas televisivas e uma literatura por vezes muito constrangida por imperativos mercadológicos ou por legitimações acadêmicas: 


Bem assinala o escritor portenho Damián Tabarovski que a literatura reveladora da heterogênea comunidade do nosso tempo se enuncia para fora dos critérios de legitimação defendidos por mercado e universidade, compostos num binômio desprovido de interesse pela experimentação, pelo potencial de acontecimento irrompido da rede pluritópica em que a palavra agora se inscreve (VASCONCELOS, 2012).


A busca por uma literatura que rompa com padrões estabelecidos, circunscrita a critérios de legitimação, também será levantada por César Aira (2007), que chamará a atenção para o acúmulo de obras que nada acrescentam ao que já existe e que apenas aumentam a circulação sem fim de signos, se quisermos fazer um paralelo com o que Baudrillard (1991) diagnostica com relação às imagens na contemporaneidade. Aira argumentará que as obras valem pelo procedimento pela qual foram criadas e que a busca dos artistas precisa residir nisso, se quiserem que suas obras se desassociem da saturação e da esterilidade. 


Os grandes artistas do século XX não são os que fizeram obra, mas aqueles que inventaram procedimentos para que a obra se fizesse sozinha, ou não se fizesse. Para que precisamos de obras? Quem quer outro romance, outro quadro, outra sinfonia? Como se já não existissem o bastante! (AIRA, 2007, p. 13). 


Autores como Mallo, Aira, José Agrippino de Paula e Valêncio Xavier nos mostram que por vezes é justamente da articulação inusitada de elementos vindos do televisivo, da cultura pop, da publicidade é que pode surgir o ruído, o estranhamento, o enigma, elevando o simulacro (que é como Baudrillard chamará as imagens tantas vezes veiculadas – e por isso já sem enigma – das telas na contemporaneidade) como dimensão operante de um novo estatuto estético. 

Os elementos de uma cultura informacional, muito além de causar saturações estagnantes, podem ser manejadas a favor de uma linguagem que tensiona, que dialoga de modo mais pulsante e profícuo com o contemporâneo, com suas maneiras de pensar, fragmentadas, móveis. Algo que se encontra em diálogo com dispositivos audiovisuais, cada vez mais presentes num contexto digital multimidiático em que as produções televisivas, crescentemente atreladas a serviços de streaming e a fluxos informativos e fabulativos vindos da web, constituem um universo hibrido de cinema, telesserie, noticiário e publicidade, revelando uma sofisticada capacidade apropriativa. 

A presença da telenovela na literatura (e também do cinema, da publicidade) será tão mais rica quanto mais distante estiver da esfera do pastiche, de uma mera referencialidade nostálgica ou debochada, e quanto mais se aproximar de configurações discursivas expandidas em sincronia com o lugar crescente ocupado pelo literário enquanto sistema de informação desde a segunda metade do século XX (tese de Friedrich Kittler apresentada por Salles Vasconcelos no ensaio Compactos – Lugares públicos/portáteis do cinema e da literatura). 

Puddle Paintings, de Ian Davenport


A literatura deve, portanto, se apresentar como uma força que se desloca de qualquer tentativa de autocerramento, da reclusão num princípio de imunidade, de especificidade na tentativa de imprimir uma valoração em face do contágio exercido por outros suportes e mediatizações narrativas, tal como expõe Salles Vasconcelos na referida Oficina (vide nota 1). 
  
Há de ser menos corporativista e mais comparativista a perspectiva de análise dos elos entre TV e escrita na atualidade, no sentido de se pensar essas possibilidades em diálogo vasto e contínuo com todas as áreas do conhecimento, com todas as outras artes e linguagens. 
    
Tomemos de empréstimo uma imagem da Química. O carbono é dos mais versáteis elementos que existem por conta de uma propriedade chamada alotropia, capacidade que suas moléculas têm de se organizarem de maneiras diferentes e formarem assim estruturas das mais diversas. Dependendo de como se dá esse arranjo de átomos de carbono podemos ter, por exemplo, a dureza do diamante, a maciez do grafite ou a incrível tridimensionalidade do fulereno. Todos eles, enfim, alótropos do carbono, cada qual com sua própria apresentação e potencialidade. 
    
Assim, a escrita de literatura também precisa acionar sua dimensão alotrópica, ter essa capacidade de reunir elementos de diversas ordens e colocá-los em choque, reorganizar suas estruturas, proporcionar novos sentidos e leituras para coisas já ditas. Dar configuração inusitada para velhos carbonos. Estabelecer colisões entre a ciranda de imagens da tela e a solidão de quem a assiste, com seus medos, sua ordem de afetos, seus fantasmas, enfim, acionando assim a Psicanálise, a Filosofia, a Sociologia, a Comunicação, as teorias sobre imagem, de modo a produzir entendimentos diversificados sobre questões sedimentadas, repetidas tautologicamente, como, por exemplo, as dicotomias-chavões acerca de “cultura de massa”. Pois despontam relações conviviais muito reveladoras do tempo presente, não operadas numa única direção, quando se liga um aparelho de TV em elos conexos com outros dispositivos de som-imagem-narração. 
   
A escrita, portanto, nessa chave interdiscursiva, pode elevar elementos tão díspares a uma renovadora cartografia do real e de seu rastro massivo, ininterrupto de fábulas[2], no interior de uma consolidada cultura audiovisual e digital. Uma dimensão, enfim, indispensável a outro desenho do que entendemos por espaço literário, especialmente no contexto de um país ainda sinalizado pelos influxos da novela da noite e dos novos segmentos seriais dia afora. 


 

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REFERÊNCIAS

 

AIRA, César. Pequeno manual de procedimentos. Trad. Eduardo Marquardt e Marcos Maschio Chaga. Curitiba: Arte e Letra, 2007.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e simulação. Trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d ́água, 1991.

MALLO, Augustín Fernández. Blog Up. Ensayos sobre cultura y sociedad. Valladolid: Universidad de Valladolid, 2012.

MARTÍN-BARBERO, Jesús.; REY, Germán. Os exercícios do ver: hegemonia audiovisual e ficção televisiva. Trad. Jacob Gorender. 2. ed. São Paulo: Senac, 2004.

RONELL, Avital. Trauma TV. In: _______. Essays for the end of the millennium. Lincoln e Londres: University of Nebraska Press, 1994.

VASCONCELOS, Maurício Salles. Televisões (numa emergência). 25 set. 2012. Disponível em <http://www.musarara.com.br/televisoes-numa-emergencia>. Acesso em: 01 fev. 2020.

_________. Compactos – Lugares públicos/portáteis do cinema e da literatura. In: MOGRABI, Gabriel; REIS, Celia Domingues. (Org.). Cinema, literatura e filosofia: interfaces semióticas. 1 ed.Cuiabá/Rio de Janeiro: FAPEMAT/7 Letras, 2013, v. 1, p. 35-48.

_________. Bráulio Pedroso (Novela da Noite). São Paulo: Giostri, 2018.

WALLACE, David Faster. E Unibus Pluram: Television and US fiction. In: ___________. A Supposedly Fun Thing I'll Never Do Again: Essays and Arguments. Nova York: Best Bay Books, 1998.



[1] Trecho da exposição verbal do prof. Maurício Salles Vasconcelos durante a disciplina de pós-graduação “Oficina de Escrita Narrativa - O romance e outras formas de relato”, no segundo semestre de 2018, oferecida pela linha de pesquisa “Laboratórios de Criação – Escrita de Literatura e Narrativa” (FFLCH-USP).

[2] Algumas dessas proposições de leitura se encontram nos textos citados de Mauricio Salles Vasconcelos e, também, em seu romance Bráulio Pedroso (Novela da Noite).

 

 

 

 

Acesse o nosso site - Lápis Laboratórios de Criação:

https://www.lapislaboratorio.site/

 


19 outubro, 2020

Presença

 

por Felipe Souza

(Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos 
Comparados/Laboratórios de Criação – Escrita de Literatura e Teoria)

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E logo depois de acordar, de fixar bem os olhos a sua frente, a cortesia do Divórcio lhe mostrará suas novas instalações. Um cômodo com oito ou nove metros quadrados será para ele agora o dormitório, a sala de reuniões, o escritório, o quartinho das visitas e, por que não, a copa. Só não será também o banheiro e a cozinha por meras questões de ordem higiênica que até mesmo os divorciados insistem em ter. Será tudo muito prático – lhe mostrará o anfitrião – qualquer visita (se elas ainda existirem, o Divórcio não costuma ser muito simpático às visitas) poderá conhecer a sua nova habitação em apenas alguns passos. Vejam ali a cama, vejam ali o guarda-roupas, vejam ali a escrivaninha. Poderão haver molduras também. Você sempre não sonhou com uma casa com jardim? Pois bem, fique à vontade, poderá pregar um Monet imenso naquela parede dos fundos (uma reprodução das mais baratas, é claro). Pregar não, colar. Os pregos danificam o imóvel e é sempre bom lembrar que o quarto é alugado.

(...) 

E às três da manhã, o Divórcio te cutucará no ombro esquerdo e te lembrará que agora você não dorme mais, que tuas pálpebras já não fecham e que já adquiriram cor de carne cozida. E às três da manhã, a Ansiedade te dará um choque elétrico nos dedos dos pés e te fará lembrar que já não há mais possibilidade de repouso. Tuas pernas já foram adaptadas para não pararem mais. Mesmo quando você insistir em deitar, porque afinal é noite, está escuro, e houve um tempo em que nessas condições você costumava se deitar para dormir, mesmo assim, tuas pernas se mexerão tresloucadas, sem destino, sem propósito, apenas porque já não podem ficar paradas. Às três da manhã, o Divórcio lhe sussurrará docemente na porta de teu ouvido e cada palavra sussurrada pelo Divórcio lhe soará como um mantra: Cecília não se lembrará mais de você! Você não vai acompanhar Cecília crescer! Cecília chamará Tião de pai! E você se lembrará de que viu em algum lugar, num daqueles programas dominicais que só pessoas como você assistem, que a memória é algo que só é desenvolvida de todo a partir dos 3 anos, e que antes disso não nos lembramos de nada, é tudo um grande e infinito vazio, o mesmo vazio, o Divórcio te fará crer, que você vai se transformar para Cecília. E logo você será apenas um estranho no porta-retratos, se ainda houver porta-retratos, porque tamanha deve ser a determinação de Silvana em apagar qualquer vestígio teu, que logo há de queimar cada fotografia. E depois de te dizer isso, o Divórcio, terno como um pai, te dará um beijo na testa e ajeitará tua coberta. Dará dois ou três passos em direção à porta, com a intenção de te deixar um pouco em privacidade, só você e a Ansiedade, mas você já se afeiçoou a Ele e implorará para que Ele fique. A cama é pequena, mas se apertarem bem, é provável que caibam os três. E assim, com o Divórcio sentado na cama, ao teu lado esquerdo, te olhando com um sorriso eterno no rosto, e com a Ansiedade aninhada aos teus pés, os dois velando cada hora de seu desespero noturno, você manterá o olhar sempre fixo no teto mofado, esperando a manhã chegar, tentando imaginar no que Cecília estaria sonhando naquele momento.

(...)

E o bar será sua segunda casa, seu “Bar, doce lar” como seus amigos dirão – os que ainda restarem, se é que restará algum, já que o Divórcio não costuma tolerar concorrentes. E quando você estiver no bar, tarde da noite, só mais dois ou três velhos palitando dentes ou cantarolando boleros, quando as portas já estiverem baixadas e o dono bigodudo começar a te olhar de modo insinuante, como quem diz ou fode ou sai de cima, o Divórcio sentará ao seu lado e pedirá uma cerveja e encherá o seu copo e o dele. Gentil como ele só, encherá o seu primeiro. Entre uma bebericada e outra, Ele lhe dirá coisas, lhe aconselhará a ficar o máximo tempo possível naquele bar, porque absolutamente qualquer outro lugar do mundo (e o Divórcio até deixará escapar um pouco de saliva ao lhe lembrar disso) será melhor do que aquele seu quarto alugado, de paredes mal pintadas, mobiliado apenas com aquela sua patética cama-box de solteiro, do guarda-roupa meio mofado de duas portas e de uma reprodução já meio amarelada de um dos quadros mais amarelados de Van Gogh. E você virará aquele copo e o próximo e pedirá outra garrafa (porque o Divórcio lhe ensinará muitas e impensáveis coisas, entre elas beber, mas beber mesmo, quantas garrafas forem preciso, e sem fazer aquela sua tradicional cara de recém-nascido tomando remédio) e beberá até a companhia do Divórcio lhe parecer aceitável, tolerável, por que não dizer desejável? Mas você precisará tomar cuidado, bastante cuidado, porque depois da sétima ou oitava garrafa será você quem vai cantarolar o bolero e pedirá um copo para cada um dos velhos, chamará o dono bigodudo para beber com vocês, abrindo para isso o seu melhor sorriso. Buscando esticar o tempo até o fiapo, especulará com eles sobre a genealogia dos hebreus, a mecânica dos helicópteros ou a qualidade das hortaliças e, ao menor sinal de hesitação do bigodudo, você passará a propor coisas, seduzi-los com partidas de sinuca (de xadrez, quem sabe). E assim que o dono do bar rumar praguejante em direção à porta, a chave em riste, você ouvirá as primeiras notas do tema de abertura do filme noir que nesse momento vai começar (na TV que nunca é desligada, logo acima da geladeira de refrigerantes), lhe lembrando que é noite, que você está num bar sujo e que ninguém, absolutamente ninguém, te espera em casa.