por Felipe Souza
E
logo depois de acordar, de fixar bem os olhos a sua frente, a cortesia do
Divórcio lhe mostrará suas novas instalações. Um cômodo com oito ou nove metros
quadrados será para ele agora o dormitório, a sala de reuniões, o escritório, o
quartinho das visitas e, por que não, a copa. Só não será também o banheiro e a
cozinha por meras questões de ordem higiênica que até mesmo os divorciados
insistem em ter. Será tudo muito prático – lhe mostrará o anfitrião – qualquer
visita (se elas ainda existirem, o Divórcio não costuma ser muito simpático às visitas)
poderá conhecer a sua nova habitação em apenas alguns passos. Vejam ali a cama,
vejam ali o guarda-roupas, vejam ali a escrivaninha. Poderão haver molduras
também. Você sempre não sonhou com uma casa com jardim? Pois bem, fique à
vontade, poderá pregar um Monet imenso naquela parede dos fundos (uma
reprodução das mais baratas, é claro). Pregar não, colar. Os pregos danificam o
imóvel e é sempre bom lembrar que o quarto é alugado.
(...)
E
às três da manhã, o Divórcio te cutucará no ombro esquerdo e te lembrará que
agora você não dorme mais, que tuas pálpebras já não fecham e que já adquiriram
cor de carne cozida. E às três da manhã, a Ansiedade te dará um choque elétrico
nos dedos dos pés e te fará lembrar que já não há mais possibilidade de
repouso. Tuas pernas já foram adaptadas para não pararem mais. Mesmo quando
você insistir em deitar, porque afinal é noite, está escuro, e houve um tempo
em que nessas condições você costumava se deitar para dormir, mesmo assim, tuas
pernas se mexerão tresloucadas, sem destino, sem propósito, apenas porque já
não podem ficar paradas. Às três da manhã, o Divórcio lhe sussurrará docemente
na porta de teu ouvido e cada palavra sussurrada pelo Divórcio lhe soará como
um mantra: Cecília não se lembrará mais de você! Você não vai acompanhar
Cecília crescer! Cecília chamará Tião de pai! E você se lembrará de que viu
em algum lugar, num daqueles programas dominicais que só pessoas como você
assistem, que a memória é algo que só é desenvolvida de todo a partir dos 3
anos, e que antes disso não nos lembramos de nada, é tudo um grande e
infinito vazio, o mesmo vazio, o Divórcio te fará crer, que você vai se
transformar para Cecília. E logo você será apenas um estranho no
porta-retratos, se ainda houver porta-retratos, porque tamanha deve ser a
determinação de Silvana em apagar qualquer vestígio teu, que logo há de queimar
cada fotografia. E depois de te dizer isso, o Divórcio, terno como um pai, te
dará um beijo na testa e ajeitará tua coberta. Dará dois ou três passos em
direção à porta, com a intenção de te deixar um pouco em privacidade, só você e
a Ansiedade, mas você já se afeiçoou a Ele e implorará para que Ele fique. A cama é pequena, mas se
apertarem bem, é provável que caibam os três. E assim, com o Divórcio sentado
na cama, ao teu lado esquerdo, te olhando com um sorriso eterno no rosto, e com
a Ansiedade aninhada aos teus pés, os dois velando cada hora de seu desespero
noturno, você manterá o olhar sempre fixo no teto mofado, esperando a manhã
chegar, tentando imaginar no que Cecília estaria sonhando naquele momento.
E o bar será sua segunda casa, seu “Bar, doce lar” como seus
amigos dirão – os que ainda restarem, se é que restará algum, já que o Divórcio
não costuma tolerar concorrentes. E quando você estiver no bar, tarde da noite,
só mais dois ou três velhos palitando dentes ou cantarolando boleros, quando as
portas já estiverem baixadas e o dono bigodudo começar a te olhar de modo
insinuante, como quem diz ou fode ou sai de cima, o Divórcio sentará ao seu
lado e pedirá uma cerveja e encherá o seu copo e o dele. Gentil como ele só,
encherá o seu primeiro. Entre uma bebericada e outra, Ele lhe dirá coisas, lhe
aconselhará a ficar o máximo tempo possível naquele bar, porque absolutamente
qualquer outro lugar do mundo (e o Divórcio até deixará escapar um pouco de
saliva ao lhe lembrar disso) será melhor do que aquele seu quarto alugado, de
paredes mal pintadas, mobiliado apenas com aquela sua patética cama-box de solteiro,
do guarda-roupa meio mofado de duas portas e de uma reprodução já meio
amarelada de um dos quadros mais amarelados de Van Gogh. E você virará aquele
copo e o próximo e pedirá outra garrafa (porque o Divórcio lhe ensinará muitas
e impensáveis coisas, entre elas beber, mas beber mesmo, quantas garrafas forem
preciso, e sem fazer aquela sua tradicional cara de recém-nascido tomando
remédio) e beberá até a companhia do Divórcio lhe parecer aceitável, tolerável,
por que não dizer desejável? Mas você precisará tomar cuidado, bastante
cuidado, porque depois da sétima ou oitava garrafa será
você quem vai cantarolar o bolero e pedirá um copo para cada um dos velhos,
chamará o dono bigodudo para beber com vocês, abrindo para isso o seu melhor
sorriso. Buscando esticar o tempo até o fiapo, especulará com eles sobre a
genealogia dos hebreus, a mecânica dos helicópteros ou a qualidade das
hortaliças e, ao menor sinal de hesitação do bigodudo, você passará a propor
coisas, seduzi-los com partidas de sinuca (de xadrez, quem sabe). E assim que o
dono do bar rumar praguejante em direção à porta, a chave em riste, você ouvirá
as primeiras notas do tema de abertura do filme noir que nesse momento
vai começar (na TV que nunca é desligada, logo acima da geladeira de
refrigerantes), lhe lembrando que é noite, que você está num bar sujo e que
ninguém, absolutamente ninguém, te espera em casa.
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