A TV é irremissível; está sempre ligada, mesmo quando
está desligada.
(Avital Ronell. Trauma TV)
Tendo invadido o microcosmo doméstico depois da II Guerra, sendo “servida na travessa da Guerra Fria”, como coloca Avital Ronell (1994, p. 308), a televisão “está ligada de maneira crucial ao enigma da sobrevivência”, reelaborando na tela uma tessitura de “experiências quebradas e memórias redirecionadas”. Nesse contexto, a televisão não age de modo a registrar, mas prefere, de outro modo, “encenar os mitos da vivência, da cor viva e do estar presente”, produzindo assim “uma perspectiva contrafóbica para uma história interrompida”, atuando como “amortecedor de choques para a incompreensibilidade da sobrevivência” (ibid).
David Foster Wallace, tendo em perspectiva a presença do televisivo nos Estados Unidos, dirá que a televisão “identifica, suga e então reapresenta o que imagina que a cultura americana quer ver e ouvir sobre si mesma”, e conclui, “se quisermos saber o que é a normalidade americana – o que os americanos querem ver como normal – podemos confiar na televisão” (1998, p. 151-152). No contexto latino-americano, Martín-Barbero e Rey dialogam com Wallace ao concluírem que a televisão “se converte em uma reivindicação fundamental das comunidades regionais e locais, em sua luta pelo direito à construção de sua própria imagem, que se confunde com o direito à sua memória” (2004, p. 35).
Bem assinala o escritor portenho Damián Tabarovski que a literatura reveladora da heterogênea comunidade do nosso tempo se enuncia para fora dos critérios de legitimação defendidos por mercado e universidade, compostos num binômio desprovido de interesse pela experimentação, pelo potencial de acontecimento irrompido da rede pluritópica em que a palavra agora se inscreve (VASCONCELOS, 2012).
Os grandes artistas do século XX não são os que fizeram obra, mas aqueles que inventaram procedimentos para que a obra se fizesse sozinha, ou não se fizesse. Para que precisamos de obras? Quem quer outro romance, outro quadro, outra sinfonia? Como se já não existissem o bastante! (AIRA, 2007, p. 13).

__________________
REFERÊNCIAS
AIRA,
César. Pequeno manual de procedimentos. Trad. Eduardo
Marquardt e Marcos Maschio Chaga. Curitiba: Arte e Letra, 2007.
BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e simulação. Trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d ́água, 1991.
MALLO, Augustín Fernández. Blog Up. Ensayos
sobre cultura y sociedad. Valladolid: Universidad de Valladolid, 2012.
MARTÍN-BARBERO, Jesús.; REY, Germán. Os exercícios do ver:
hegemonia audiovisual e ficção televisiva. Trad. Jacob Gorender. 2. ed. São
Paulo: Senac, 2004.
RONELL, Avital. Trauma TV. In: _______. Essays for the end of the millennium. Lincoln
e Londres: University of Nebraska Press, 1994.
VASCONCELOS, Maurício Salles. Televisões (numa emergência).
25 set. 2012. Disponível em <http://www.musarara.com.br/televisoes-numa-emergencia>. Acesso em: 01 fev. 2020.
_________. Compactos – Lugares
públicos/portáteis do cinema e da literatura. In: MOGRABI, Gabriel; REIS, Celia
Domingues. (Org.). Cinema, literatura e filosofia:
interfaces semióticas. 1 ed.Cuiabá/Rio de Janeiro: FAPEMAT/7 Letras, 2013, v.
1, p. 35-48.
_________. Bráulio Pedroso (Novela da Noite). São Paulo: Giostri, 2018.
WALLACE, David Faster. E Unibus Pluram: Television and US fiction. In: ___________. A Supposedly Fun Thing I'll Never Do Again: Essays and Arguments. Nova York: Best Bay Books, 1998.
[1] Trecho da exposição verbal do
prof. Maurício Salles Vasconcelos durante a disciplina de pós-graduação “Oficina
de Escrita Narrativa - O romance e outras formas de relato”, no segundo
semestre de 2018, oferecida pela linha de pesquisa “Laboratórios de Criação –
Escrita de Literatura e Narrativa” (FFLCH-USP).
[2]
Algumas
dessas proposições de leitura se encontram nos textos citados de Mauricio
Salles Vasconcelos e, também, em seu romance Bráulio Pedroso (Novela da Noite).
Acesse o nosso site - Lápis Laboratórios de Criação:
https://www.lapislaboratorio.site/

Nenhum comentário:
Postar um comentário