por Priscila Gontijo
(Dramaturga
e escritora, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em
Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa/FFLCH-USP)
Não é difícil compreender que para aceitar a multiplicidade do mundo há que se conviver com tecnologias avançadas, com espécies companheiras e criar as condições necessárias para coexistir com humanos e não humanos em sua heterogeneidade. Acredito que uma das maneiras de criar laços, de tecer conexões e de pensar novas formas de nos relacionar atravessa a narrativa de ficção.
Na conversa com sua tradutora para o espanhol, Helen Torres, em maio de 2020, Donna Haraway, autora do livro Ficar com o problema[1], diz que “Histórias de Camille” trata-se de sua primeira tentativa de escrever uma ficção especulativa, uma ficção científica. A fábula surgiu de uma oficina de narração junto à Vinciane Despret e Fabrizio Terranova em que muitos fatos científicos são usados para construir uma história.
As histórias de Camille
funcionam como um esboço de histórias possíveis, um tipo de revezamento, como
um jogo de cordas com histórias entrelaçadas. Segundo Haraway as alianças de
Camille consistem em trabalhar com e para os humanos e os não-humanos. No
ensaio, “The Carrier Bag Theory of Fiction” de Ursula Le Guin, citado por
Haraway na conversa com Torres, Le Guin fala sobre:
(...) a necessidade de deixar de
contar o conto fálico, o conto do herói com as armas, o conto de viagens
fálicas que regressam com a recompensa...basta de histórias fálicas! Precisamos
contar as histórias dos detalhes minuciosos de como viver e morrer juntxs, as
histórias de colecionar e compartilhar e pegar e dar que não são, de forma
alguma, histórias inocentes, mas são histórias de viver e morrer como uma
sacola de rede, como uma mochila, como uma espécie de coleção. Essas são
as histórias que Le Guin pensa como a forma da ficção. Então, não se trata do
espaço da matriz com o significante privilegiado que se desloca através do
relato, senão algo mais parecido com essa mochila portadora feita por um
coletivo de mulheres (...) (Haraway, 2020)
Quando Haraway diz que
nossas práticas de contação de histórias estão repletas de formas de imaginar e
performar mundos que façam mais sentido, alguns conceitos de Anna Tsing parecem
ecoar das profundezas do bosque, clamando por modos alternativos de uma nova
escrita, onde habitar um devir-com seja não só possível, mas almejado. Essa
nova forma de ficcionalizar urge por uma comunicação transespecífica, feita de
encontros imprevisíveis, a partir da floresta de cogumelos Matsutake. Ao
descobrir iguarias nascidas das ruínas, poderemos – quem sabe – expandir com os
limites do narrar.
Em seus livros, Tsing
abandona a etnografia e se aproxima do texto literário em uma perspectiva
dialógica. Em The Mushroom at the End of the World: On the Possibility of
Life in Capitalist Ruins, por exemplo, Tsing mostra que o trabalho com
fungos é capaz de atravessar os limites entre ciências naturais e estudos
culturais e revelar um conhecimento não apenas crítico, mas criador de mundos.
O que está em jogo é
construir narrativas mais densas sobre os fenômenos com os quais nos deparamos.
E para isso não apenas são necessárias outras formas de ver o mundo, como
também ter a capacidade de escutá-lo, de pressenti-lo, de aguardá-lo e de
compreender que não há apenas um mundo, mas variações dele, em planos
distintos. É necessário deslocar as bordas indisciplinares para o centro das
coisas.
Em Viver nas ruínas:
paisagens multiespécies no Antropoceno, Anna Tsing menciona que a “‘virada
acadêmica’ para a multiplicidade se destaca com os múltiplos aparatos de
conhecimento atuando simultaneamente” (Tsing, 2019, p.142). Uma de suas
intervenções metodológicas foi fundamentar pesquisa e análise em uma paisagem,
pois “uma paisagem pode existir em qualquer escala, mas sempre envolve uma
diversidade de fragmentos. (...) Pensar com paisagens abre a análise para uma
multiplicidade entrelaçada” (idem, p.149). Esses métodos se reúnem para
possibilitar o conceito de assemblage. Assembleia é uma ferramenta para
investigar “como variadas espécies em um agregado de espécies influenciam umas
às outras. (...) e nos mostram histórias potenciais em formação” (idem, p.150).
O termo, usado como
conjunto de coordenações através da diferença, ganha de Tsing o aditivo
“polifônico” e assim, pode apontar para uma nova dimensão da escrita narrativa.
Escrita essa em que a percepção aprecia os múltiplos ritmos temporais e
trajetórias do agenciamento, ao contrário do ritmo do progresso.
Esses ritmos têm sua relação com as
colheitas humanas; se adicionarmos outras relações, por exemplo, a de
polinizadores ou outras plantas, os ritmos se multiplicam. A assembleia
polifônica é a reunião desses ritmos, resultam de projetos de criação de mundos,
humanos e não humanos (idem, p.152).
Nesse sentido, a
proposta de uma escrita Matsutake ou de uma multiespécie narrativa não
tem unidade e nem é passiva. Ela obedece a uma via não cronológica e sua
presença espacial é indefinida, dispersa, sua indeterminação faz parte da
história. Colher a palavra como um apanhador de cogumelos, a recompensa sendo o
grau mínimo: uma multiplicidade de cheiros vertiginosos nascido entre bons
parceiros: plantas, animais e fungos. Nessa nova forma de narrar no contemporâneo,
o verdadeiro ato criativo se revela nessa zona de histórias conturbadas e
contaminações ferozes, essas “zonas serpentinosas”, para usar um termo de
Haraway. Nesta proposta de criação de uma narrativa especulativa interessa
investigar vazamentos, ranhuras, rachaduras, aquilo que escapa, as
indeterminações, oposições contínuas sem sínteses, aquilo que não é visível,
explicável, fixo, porque não é mais possível acreditar em lugares estáveis ou
falar de parentesco no capitalismo.
Tanto Haraway com suas
histórias de Camille quanto Tsing na floresta de Matsutake conseguem provocar
cortes na marcha de progresso e possibilitar uma redefinição de arte, cultura e
pensamento. Para além do multiculturalismo, as histórias de Camille permitem
construir redes, entendendo que o entrelaçamento entre humanos e não humanos
gera movimento. As escritas de nossos dias seguem temporalidades múltiplas, revitalizando descrição e
imaginação. Todos nós temos essas linhas de vida de caráter heterogêneo da comunidade,
linhas étnicas, poéticas, narrativas, sexuais, de relatos da terra, dos corpos,
como informam Deleuze e Guattari, em Mil Platôs.
Nesse laboratório cósmico de misturas, de comunicações, de trocas e de coexistência de mundos, nada se separa, mas abre-se a ideia de perspectiva de mundos mais que humanos, afinal, como aquela piada séria feita pelo companheiro de Haraway: não é humano, mas húmus.
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Referências:
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. “Micropolítica e
segmentaridade.” In Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 3. Coordenação
da tradução de Ana Lúcia de Oliveira. São Paulo: Editora 34, 2012.
HARAWAY, D. Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulhucene. Durham and London: Duke University Press, 2016.
______. Ficar com o problema: gerar parentesco no Chthuluceno, a ser publicado pela n-1 edições em tradução de Ana Luiza Braga. Entrevista com Donna Haraway, feita por sua editora para o espanhol, Helen Torres. Tradução: Ana Luiza Braga, Caroline Betemps, Cristina Ribas, Damián Cabrera e Guilherme Altmayer. Revisão: Ana Luiza Braga. Disponível em: https://n-1edicoes.org/137 Acesso em: 27/11/20.
______. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuleceno: fazendo parentes. Tradução: Susana Dias, Mara Verônica e Ana Godoy. Artigo publicado no site ClimaCom Cultura Científica, 2016. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4197142/mod_resource/content/0/HARAWAY_Antropoceno_capitaloceno_plantationoceno_chthuluceno_Fazendo_parentes.pdf Acesso em: 06/12/20.
LE GUIN,
U. K. “The Carrier Bag Theory of Fiction.” In Dancing at The Edge of The
World. Thoughts on Words, Women, Places. New York: Harper & Row, 1990.
TSING, ANNE. The Mushroom at the End of the World: On the Possibility of Life in Capitalist Ruins, Princeton University Press, 2015.
______. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno. Tradução: Thiago Mota Cardoso et al. Brasilia: IEB Multi Folhas, 2019.
[1] Helen Torres, ao entrevistar Donna Haraway, faz perguntas em relação à situação atual em diálogo com citações do livro Ficar com o problema. A primeira citação é do capítulo Pensamento Tentacular: “Como podemos pensar em tempos de urgência sem os mitos autoindulgentes e autorrealizáveis do apocalipse quando cada fibra de nosso ser está entrelaçada, e é até mesmo cúmplice, das redes de processos nas quais, de alguma maneira, é preciso envolver-se e voltar a desenhar?” (Haraway, 2020)
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Adorei
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