Laboratórios de Criação - Informações Gerais

Destinados a projetos de Mestrado e Doutorado, os Laboratórios de Criação se centram no caráter inventivo das obras poéticas, narrativas e teóricas a serem apresentadas como dissertações e teses no Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP).

Norteia essa linha de pesquisa o empenho de investigação e inovação no campo do comparativismo, com a abertura de vertentes conceituais entre as várias literaturas, artes e áreas do saber.

As produções de narrativa e poesia apresentadas como dissertações e teses deverão ser acompanhadas de um ensaio, entre 20-30 páginas (mestrado) e 40-50 páginas (doutorado), relacionado com as trilhas propositivas, os procedimentos e os processos desenvolvidos na elaboração das obras literárias. Os trabalhos de conclusão de curso terão como eixo crítico-teórico o universo multidisciplinar proporcionado pelo comparativismo literário em língua portuguesa na atualidade.

As dissertações e teses dedicadas ao âmbito exclusivo da teoria deverão se orientar por investigações sobre projetos autorais e proposições críticas relativas aos repertórios da Literatura Comparada Contemporânea, sejam na abordagem e na apresentação de novas formas escriturais, sejam na análise e na formulação de metodologias referentes à criação de textos, reportáveis ou não a oficinas de produção literária. Em sintonia com o escopo transdisciplinar definidor da linha de pesquisa, mostra-se essencial uma perspectiva atualizada e abrangente, de modo a se imprimir um caráter inovador na escrita ensaística em torno das autorias e teorias.

14 dezembro, 2020

Curva

Fragmento da narrativa inédita Brilhante.Clítoris, de Ana Paula Ferraz

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Foto: Fernanda Salles


Num ensaio sobre Colette, Kathy Acker escreve que as mulheres estão sempre se tocando. Se tocando all the time. A frase não é dela, é da filósofa francesa Luce Irigaray (Ce sexe qui n’en est pas un). Deixa pra lá: as mulheres estão sempre se tocando all the time because os lábios vaginais se tocam, duplos. Questão anatômica.

Quando uma mulher sobe numa moto ela abre as pernas e permanece de pernas abertas toda a viagem. Toda a estrada. A mulher come a estrada. O asfalto é imediato. Assim como o vento. Assim como a barba.

A mulher na moto produz o vento. Quanto mais acelera, mais vento. Os eucaliptos replantados vão ficando cada vez mais para trás, passando de futuro para passado muito rapidamente. Está a três horas longe de casa. Cada vez mais longe de casa e mais ao centro. É um presente que não acaba.

Se para, acaba o vento. Não há vento em estado inerte, não nessa hora, nessa época do ano – massas polares cobrem outros corpos, outros territórios. Ela para num mirante, curva da serra do Mar.  Ali embaixo é Santos? Bebe água. Uma cobra atravessa. Escamosa e sinuosa até que estica. A cobra é estrada. Medo nenhum da cobra, mas sim do ônibus de turismo queimando os freios. Toneladas de lataria na descida.

Segue mais adiante. Para novamente, agora para abastecer a moto. O cheiro de gasolina. Desce da moto e os lábios estão novamente colados. É uma mulher sem pressa. Toma um café na loja de conveniência e, do balcão, pelo vidro, tenta ler o muro da borracharia que esconde uma bananeira. Números. Fotografias. Propaganda eleitoral de alguma campanha local.

Segue a estrada de pernas semi-abertas e muito vento. Urgência de espaço. Velocidade sobre distância. A moto inteira entre as pernas. O motor nas mãos, pelo guidão. Controle. É preciso muita estrada.

Uma estrada que a faça cansar. Não era essa a rota. Ela queria o caminho do deserto.

 

 

 

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