Laboratórios de Criação - Informações Gerais

Destinados a projetos de Mestrado e Doutorado, os Laboratórios de Criação se centram no caráter inventivo das obras poéticas, narrativas e teóricas a serem apresentadas como dissertações e teses no Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP).

Norteia essa linha de pesquisa o empenho de investigação e inovação no campo do comparativismo, com a abertura de vertentes conceituais entre as várias literaturas, artes e áreas do saber.

As produções de narrativa e poesia apresentadas como dissertações e teses deverão ser acompanhadas de um ensaio, entre 20-30 páginas (mestrado) e 40-50 páginas (doutorado), relacionado com as trilhas propositivas, os procedimentos e os processos desenvolvidos na elaboração das obras literárias. Os trabalhos de conclusão de curso terão como eixo crítico-teórico o universo multidisciplinar proporcionado pelo comparativismo literário em língua portuguesa na atualidade.

As dissertações e teses dedicadas ao âmbito exclusivo da teoria deverão se orientar por investigações sobre projetos autorais e proposições críticas relativas aos repertórios da Literatura Comparada Contemporânea, sejam na abordagem e na apresentação de novas formas escriturais, sejam na análise e na formulação de metodologias referentes à criação de textos, reportáveis ou não a oficinas de produção literária. Em sintonia com o escopo transdisciplinar definidor da linha de pesquisa, mostra-se essencial uma perspectiva atualizada e abrangente, de modo a se imprimir um caráter inovador na escrita ensaística em torno das autorias e teorias.

19 janeiro, 2021

Duas recusas à autoria

por Dorsenna Caliuzer

Tradução Resnodan Arzuciel

 

 

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Neste começo de terceira década do século XXI, praticamente metade da humanidade encontra-se enredada nas social media[i], que vêm se consolidando como o principal mecanismo de interação interpessoal e de compartilhamento de informações – incluindo, aí, merchandising – disponível no mundo. No entanto, se a internet havia, em seus primórdios de popularização, sido saudada como um portal para a democratização e para o esclarecimento, hoje, por conta desse formato de redes sociais com o qual lida-se cotidianamente, ela recebe, a partir de qualquer debate sério sobre o fenômeno, críticas que se contrapõem ao otimismo inicial, do qual, é fato, resta ainda alguma verdade, mas que convive com o alastramento de fake news, com o aprofundamento da monetarização  e com a marketização das relações.

A escritura artística, assim como as outras artes e as demais esferas da vida, enredou-se ou foi enredada nessa nova lógica.  É difícil, por exemplo, pensar um lançamento de livro que não seja marcado ou compartilhado por meio de uma das redes existentes. Dentro desse panorama, acentua-se, para muitos escritores, a necessidade de se dar a ver, isto é, de fazer seu nome circular a fim de que seu trabalho seja conhecido, o que até pode ser legítimo. O problema, porém, é que no contexto das redes, principalmente daquelas mais usadas no Brasil, como o Facebook e o Instagram, há a barreira dos algoritmos que, a serviço de anunciantes ou entidades pagantes cujo objetivo e cuja atuação são pouco claros, selecionam, entre inúmeras postagens, os conteúdos a serem vistos nas linhas do tempo dos usuários. Buscando ultrapassar o bloqueio algorítmico, muitos escritores intensificam a autopromoção, postando fotos e curiosidades sobre si e sobre seus hábitos de escrita, iscas de olhar capazes de mostrar ao sistema que as postagens do perfil em questão possuem várias visualizações, o que as faria merecer mais visibilidade.

Quem adere a tais métodos pode não perceber que essa posição de empreendedorismo já é escritura, inclusive escritura de si, mas, por estar dentro da lógica de marketing pessoal, geralmente revela-se escritura de baixa voltagem estética e política, pois alinha-se à lógica comercial das Big Techs, que, segundo Jaron Lanier[ii], um pioneiro da realidade virtual,  compõem um império de aluguel erigido não apenas sobre publicidade, mas sobre incitação ao vício por meio da lógica dos algoritmos. O desconhecimento a respeito de já serem, tais adesões dos escritores, escritura, possibilita a reflexão crítica a respeito de o norte buscado ser possivelmente muito mais o da autoria em vez de ser o da escrita propriamente dita.

Surgida na Idade Moderna com o objetivo identificar e punir transgressores, a noção de autoria vem sendo problematizada há tempos. Na segunda metade do século XX, textos-referência sobre o tema foram escritos, como o de Roland Barthes e o de Michel Foucault. Aqui, no entanto, para falar da escrita nas redes, será lembrada a “roda da escritura”[iii], esquema que Philippe Willemart propôs para o estudo dos processos de criação literária. Consiste, tal esquema, em um sequenciamento dos papeis assumidos ou criados a partir do processo de escrita.

A primeira instância desse esquema é a do escritor, que observa e sente. A partir dessa observação-sensação, o sujeito usa o recurso tecnológico (caneta, PC, celular) e  inscreve, isto é, realiza o ato físico da inserção de caracteres em uma superfície, caracterizando a segunda instância, a do scriptor, cujos volteios de grafismos criarão letras, que irão se aglomerar em sílabas, resultando em palavras e frases a fim de concretizar a instância do narrador, aquela na qual a ficcionalização se desenvolve plenamente. Willemart usa o termo “narrador” pois seu estudo principal refere-se à obra de Marcel Proust, prosador. No entanto, tal categorização pode ser aplicada também ao campo da poesia, aproximando-se daquilo tradicionalmente chamado “eu lírico”, mas cuja nomeação mais precisa provavelmente seria “voz enunciadora”.

Após o engendramento do narrador, aparece a figura do primeiro leitor, aquele que irá reler o texto escrito até o momento e fazer rasuras e indicações de modificação. Por fim, a instância final, aquela que fecha a roda, é a do autor, isto é, a da assinatura de um nome capaz de conferir autoridade à obra. Esses cinco papeis assumidos durante o processo funcionam em sequência, dando giro à roda da escritura a cada modificação realizada.

Tendo em mente a proposta de Willemart, um olhar atento às práticas de circulação de textos nas redes sociais rapidamente nota como esses sites e aplicativos não só convidam, mas incitam à autoria, à sedimentação de perfis-grife para os quais há até, dependendo da notoriedade obtida, selos de verificação. Esse ingresso forçado no campo da autoria poderia ensejar empreitadas artísticas refinadas, nas quais a ficcionalização – pulsante tanto na instância do narrador quanto na do autor – seria capaz de criticar o próprio suporte, desmontando-o por dentro – ainda que simbolicamente –  em vez de se dedicar à mumificação de um nome e de um estilo. Parece, infelizmente, que experiências desse tipo não têm sido comuns.

Contudo, alguns trabalhos escriturais recentes abriram caminhos para questionar, relativizar ou problematizar a instância do autor, emboram  não tenham usado direta ou exclusivamente as redes sociais como suporte sobre o qual a obra se erige. São, portanto, trabalhos concretizados no formato livro, mas cujos criadores possuem perfis nas redes e chegaram a fazer alguma divulgação digital.

 Um deles é o livro Postar (popstar), cuja capa estampa o nome de Teti Conrado, que na verdade é uma personagem-autora, uma espécie, portanto, de pseudônimo.




Pseudônimos têm sido usados há séculos, muitas vezes para proteger o escritor que produziu uma obra não alinhada às regras de sua época  ou que, pessoalmente, não poderia escrevê-la  em sua época, como é o caso de Mary Ann Evans, cuja assinatura masculina “George Eliot” visava tornar seus livros “respeitáveis” aos olhos do público da Era vitoriana.

No contexto do século XXI, porém, a adoção de um pseudônimo tem motivações diferentes.

O próprio título assinado por Teti Conrado já escancara o panorama no qual  a obra foi  produzida.  Trata-se, inclusive, de uma síntese paranomástica muito bem realizada, pois traduz em duas palavras aproximadas sonoramente a lógica reinante nas redes.

A narrativa é erigida sobre uma espécie de grid, uma malha de fragmentos que se justapõem, à maneira das nuvens de tag ou das newsfeeds das WEB 2.0 e 3.0. Tal acúmulo de trechos, quase posts, vai, conforme a leitura caminha, criando não uma linha, mas sim uma rede narrativa, assumindo a configuração atual da internet como ritmo escritural, não limitando-se, no entanto, a uma celebração dessa lógica de conectividade, mas tensionando-a, algo expresso por trechos como: “Revela-se falsa a luz eterna/internáutica. Quando um sol abarca, abrasa em seu toque incompleto o senso de abrigo. Ninguém se encontra à distância, porque ultramediado”.[iv]

O pseudônimo, nesse contexto no qual oscilam conectividade genuina e ilusória, fatos e fake news, individualidade e massificação, acaba assumindo um papel crítico-irônico, pondo em xeque, ao dispensá-la deliberadamente, a autoria-capital-simbólico. O nome do autor “real” da obra pode ser entrevisto nas iniciais de uma outra personagem, Mari Soares Varelo – outro exemplo de como Postar/popstar desvela a artificialidade da autoria no mundo das redes e da escrita (que é, também, uma rede).


Outro trabalho que coloca a autoria em xeque é o livreto a serpente espelho[v], atribuído a uma entidade chamada “Ora mutt” (reverberação do pseudônimo duchampiano?), que, de acordo com a orelha da obra, corresponde à “constituição mineral que se encontra num processo específico de erosão”. O desgaste de certas partes desses elementos minerais revelaria fissuras sobre as quais surgiriam  halos  luminosos  capazes  de   envolver   a

totalidade dos espectros da cor. Durante essas emanações luminosas, seriam audíveis, dentro da “vacuidade”, algumas “mensagens”, como a que foi registrada no livro. A aura mística aumenta o mistério a respeito da autoria, que é colocada em questão durante todo o trabalho, principalmente por questionamentos como “ quem / está / lendo / este livro?”, “se eu te imagino / você está dentro / ou fora de mim?”, “se eu comecei este livro / você o estaria terminando / ou ele apenas está começando em você?”. a serpente espelho, na verdade, amplia a autoria para o leitor, em um jogo de reflexão que se dá sobre a superfície opaca da página. A imagem da serpente parece aludir ao oroboro, ou seja, a uma ciclicidade que, em alguma medida, se assemelha à da roda da escritura: escritor que é scriptor, mas também narrador, leitor e autor; leitor que é autor e, a partir dos impulsos advindos da leitura, torna-se escritor, scriptor (ainda que, talvez, mentalmente) e narrador, e assim por diante. Nesse sentido, a serpente espelhada é convite à escritura no sentido lato, a uma coautoria desautorizada ou a uma a-autoria imiscuida com a vastidão dos elementos e partículas – uma geoescrita: Ora mutt.

    Evidentemente, as obras mencionadas não propõem formas de ampliar a circulação em um meio intensamente digitalizado e conectado, pois são guiadas por outra preocupação: marcar, cada uma à sua maneira, posições de recusa ao conceito de uma autoria plana, ficcionalização empobrecida a serviço de uma etiquetação de marca-produto. Contra isso, dão seus recados. Pseudônimos sempre existiram, mas as recusas à autoria presentes nesses livros lançados nesta época histórica podem ser vistos como críticas pertinentes  à fetichização do poder fantasmático conferido pelo mundo dos digital influencers, que dedicam seus dias à obtenção de curtidas e de seguidores, isto é, de um nome, de uma autoridade capaz de convertê-los de produtos-dados a vendedores de produtos no multiverso das redes.



[i]  SOUZA, Karina. A cada segundo, 14 pessoas começam a usar uma rede social pela 1ª vez. Exame. 19 nov. 2020. Disponível em https://exame.com/tecnologia/a-cada-segundo-14-pessoas-comecam-a-usar-uma-rede-social-pela-1a-vez/ . Acesso em 10 jan. 2021.

[ii] LANIER, Jaron. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. Rio de Janeiro: Intínseca, 2018. p. 24.

[iii] WILLEMART, Philippe. Os processos de criação: na escritura, na arte e na psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2009. p.p. 37-53.

[iv] CONRADO, Teti. Postar/popstar. São Paulo: Córrego, 2019. p. 123.

[v] MUTT, Ora. a serpente-espelho. São Paulo: Patuá, 2020.

 

 

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Graça fugitiva – não se escreve com as próprias neuroses

por Tiago Cfer 

Autor do ensaio Desabrigo-Mundo - Narrativa Século XXI (a ser publicado em breve)
 
 
 

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   O ato de escrever vem se desligando de um trabalho de linguagem (negativo) capaz de perfurar as conjunturas atuais. Fabulação, construção narrativa, parecem menos importantes que a publicação. Evita-se pensar a composição. Há pouca crítica, muito coaching. Importa a construção imediata da imagem do autor. Logo, divulgação e distribuição do livro, publicidade, entrevistas, criação de tendências. Raramente surge um livro que confronte essa situação, o dilema do politicamente (in)correto, as condições de normalidade, as respostas automáticas às leis do mercado, governo, academia, internet.

Independente de seu gênero, nota Jean Bessière, “a literatura traça origens no presente, figura os possíveis e, consequentemente, justifica o real, constrói e reúne os jogos de dissenso”[1].

Nessa época em que há mais autores que leitores, festas e premiações literárias ganham um tom de colóquio narcisista assistido por espectadores entusiastas. Verdadeiros talk shows de grandes marcas onde são apresentadas as vivências do escritor, seu currículo, viagens, adesão a causas... Há espaço para opinar sobre tudo, exceto pensar as complicações que a escrita enfrenta nesse contexto. Quanto menos conflito, melhor a festa. Assim, o texto vai sendo substituído por imagens, trejeitos, looks.

Não é esse o caso dos autores e livros que abordo aqui. Botika – Uma autobiografia de Lucas Frizzo (2004) e Búfalo (2010); Fausto Fawcett –  Favelost (the book) (2012); e Mauricio Salles Vasconcelos – Ela não fuma mais maconha (2011), Telenovela (2014), Bráulio Pedroso (Novela da noite) (2018). Pouco estudados e comentados, estes livros, analisados em conjunto, formam um panorama expressivo da escrita narrativa desde o início deste século. Uma questão prévia é a de que seus autores estão distantes do quadro instituído pela “literatura brasileira contemporânea”. Não constam nas listas cotadas anualmente por suplementos literários, revistas e cursos universitários. Todavia, não seriam escritores assim, que constroem sua obra sem intenções de coincidir com a época, mergulhados “nas trevas do presente”, como diz Agamben[2], que forneceriam mais elementos para a literatura traçar “origens no presente”, elaborar os “jogos de dissenso” da época? Não é mais ou menos isso o que boa parte da crítica defende, mas não assume?

Trago esses livros em conjunto não porque pretendo estabelecer entre eles uma identidade. Pelo contrário. São estilos e composições bem distintos. Formam, como escreve Damián Tabarovsky, uma comunidade dissensual, negativa, “na qual o inacabamento é o seu princípio, mas tomado como termo ativo, designando não a insuficiência ou a falta, mas o trânsito ininterrupto das rupturas singulares. Cada escritor inaugura uma comunidade”[3].


Descontinuidade, figuras em movimento. Cada livro começa com uma interrupção, atravessa o fluxo de comunicação e informação diário que subordina os acontecimentos a um processo passível de cálculo, governo e controle. Inicia um jogo ainda não formulado, sem nenhuma relação com as constâncias reconfortantes do reconhecimento. Literatura não é feita para compreender, mas para cortar. Que aconteceu? “Parece ter chegado a um limite. (...) – Foi assim que você perdeu o fio do tempo, da história que se seguia... (...) Era preciso que saísse dali, pois se esgotou, como se fosse alguma coisa além dela mesma.”[4] “A novela continua a passar na TV, sem mais a presença da mãe. (...) – Nós duas nos sentamos aqui e conversamos por cima do que passa na TV. Todas as noites. A gente se reunia. Olha, já estou falando em passado, e aconteceu ainda agora.”[5]

Há, nos romances de Mauricio S. Vasconcelos, um começo suspenso, indagador, do qual a trama decorre multiplicando personagens, ambientes e focos narrativos. Ao passo que nos livros de Botika e Fausto Fawcett o leitor já é introduzido em uma ação aparentemente disparatada desde o início. “Sempre pensei em morar em São Paulo. Hoje acabo de decidir ir de verdade, agora sim. Acho que vou sair agora, correndo, sem mala, sem gosto de nada na boca.”[6]

Palavras iniciantes que nos interpelam e nos arrastam para frente. Abalo de um começo, a partir do qual as figuras narrativas emergem, são postas em movimento. “Meus territórios estão fora de alcance, e não porque sejam imaginários; ao contrário, porque eu os estou traçando.”[7]

  Nota/desenho do autor sobre o romance Ela não fuma mais maconha.


Ponto de vista de lugar nenhum. O que torna fecundo o desenvolvimento narrativo não é a adesão a uma ideia de verdade, a um discurso moral, um sentido reparador do mundo. Independente da vontade ou satisfação do narrador, a matéria com a qual ele compõe a trama, a linguagem, segue exterior, indiferente, contingente.

Não por acaso, o narrador nestes três autores parece estar na posição frágil e aberta de uma criança que, à noite, se abisma com as coisas do mundo. Reverso do velho e sábio benjaminiano, sua posição é a do recém-nascido perplexo com as imagens e sons do universo, “grande junção” informe para a qual o mundo se apresenta incipiente: “ponto de vista de “lugar nenhum” [que] se diz pelo próprio lugar de ação”[8].

 

Filosofia-ficção. A noção decisiva desenvolvida pelo escritor norte-americano William S. Burroughs de que a linguagem é literalmente um vírus nos fornece duas hipóteses complementares: o mecanismo da linguagem é destruidor, violento; qualquer projeto civilizatório é pandêmico, pois constituído por linguagem. A vacina contra esse vírus é a própria linguagem. Combate-se a linguagem pela linguagem, seu antídoto.

Nesse sentido, os romances em questão servem-nos de laboratório de pesquisas. Contra a função repressiva da língua, os comandos que nos imobilizam como meros receptores e reprodutores da ordem, Botika constrói narrativas mais violentas que a violência instituída. Fausto Fawcett engendra uma contra-antropologia. Mauricio Salles Vasconcelos desenvolve uma escrita musical oposta ao muzak dos elevadores nacionais, uma escrita televisiva oblíqua à teletransmissão que molda o trauma diário. Seus livros formam mapas, maquetes, esboços de linhas transversais articuladas aos phylum maquínicos das tecnociências. Realizam uma transdisciplinaridade viva (como bem propõe Guattari) entre urbanismo, arquitetura, artes, ciências sociais, humanas, ecológicas, no traçado de uma ciência em formação. Abrem novos espaços, “extrarradiais”, segundo a expressão de Agustín Fernandez Mallo.[9]

Búfalo pode ser lido como um catálogo de arte que toma o projeto escultórico do artista plástico Tunga – “agrupamentos de formas expansivas” – para criar linhas reconfiguradoras do corpo na cidade. Favelost como um tratado da destruição e da subjetivação pós-humana no Brasil. Bráulio Pedroso (Novela da Noite) acaba por se revelar também como ensaio que se desprende do simulacro de realidade produzido pela televisão, ao elaborar proposições filosóficas, entre o aforismo e o koan, demonstrando um pensamento compacto, ágil, capaz de perfurar a imantação televisiva do real.

Trata-se de um projeto inverso ao da “Filosofia da composição” de Edgar Allan Poe. Uma “filosofia em composição”. Narrativa literal, escreve escrevendo-se. Escrita em exposição. O que não tem nada a ver com escrever com as próprias neuroses (diagnóstico deleuzeano em “A literatura e a vida”), mas com a formação de um pensamento planetário em sua graça fugitiva: “O pensamento planetário não é unificado: ele implica uma profundidade do céu, uma extensão do universo em profundidade, aproximações e distanciamentos sem meio termo, números inexatos, toda uma filosofia-ficção”[10].



[1] Bessière, Jean. “Notas sobre o estado da literatura e da crítica francesas contemporâneas – A respeito de duas vias da criação literária hoje”. Cerrados nº 36, Revista do Programa de Pós-Graduação em Literatura. Acesso em 10/01/2021: https://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/article/view/14112/12434 .

[2] Agamben, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos, 2009, p. 63.

[3] Tabarovsky, Damián. Literatura de esquerda. Trad. Ciro Lubliner e Tiago Cfer. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2017, p. 20.

[4] Vasconcelos, Mauricio Salles. Ela não fuma mais maconha. São Paulo: Annablume, 2011, p. 9.

[5] _________. Telenovela. São Paulo: Giostri, 2014, p. 9.

[6] Botika. Uma autobiografia de Lucas Frizzo. Rio de Janeiro: Azougue Editoria, 2004, p. 9.

[7] Deleuze, Gilles e Guattari, Félix. Mil platôs – capitalismo e esquizofrenia, vol. 3. Trad. Aurélio Guerra Neto et alii. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996, p. 72.

[8] Bessière, Jean. Le roman contemporain ou la problématicité du monde. Paris: Presses Universitaires de France, 2010, p. 322.

[9] Mallo, Agustín Fernández. Postpoesía – hacia un nuevo paradigma. Barcelona: Editorial Anagrama, 2009: “Se há algo que compartilham as disciplinas que realmente podem ser chamadas de contemporâneas, é a indefinição na hora de identificá-las, nomeá-las e catalogá-las. Essas zonas indefinidas é o que comumente chamamos extrarraios” (p. 93).

[10] Deleuze, Gilles. A ilha deserta: e outros textos. Edição preparada por David Lapoujade; organização da edição brasileira e revisão técnica de Luis B. L. Orlandi. São Paulo: Iluminuras, 2006, p. 205. 

 

 

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Uma vida não chega

 

 por I.C. Copper

Jovem poeta e editor português, autor de Criolina para cavalo (2012). Atua na independente Traveller, dedicada especialmente à poesia. Muito estudado nos Laboratórios de Criação (FFLCH/USP), Copper recria no livro citado alguns motivos e sequências de Une saison en enfer, de Rimbaud. Selecionamos aqui alguns trechos de seu inédito Nelson ou Uma foda no limbo.

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Heaven in Hell, de I.C. Copper

  

Estás vivo

num sonho impossível

de que ninguém sabe.

 

Nefertiti visita Cartago e compra tudo.




***




Praia. Vêem-me só, circunspecto.

Difíceis

são os corpos em evidência.

Queima a tua luz

desejada

 – distante.

  



***




No silêncio pode haver

uma velocidade

que não a das pessoas. 

 



***




Alguns poetas

só percebem de poesia.

Sabem limpar uma planta, cozinhar

arroz.

Morrem de vergonha

de não saber

conversar.




***




Também é bom

desolhar.

Lentamente.

E desovar.




*** 




NATURALISTA

 

Sonhei que a mãe me tinha tirado e rasgado umas folhas que andava a escrever muito boas. Revolto-me, mesmo à frente do pai, que está a chegar, digo que me vou embora, parto copos que estavam no quarto, está lá a Maria, estou chocado e triste… a mãe diz que aquilo não era humano. Eu berro, «e O QUE É HUMANO? O que tens que pôr na cabeça…» falha-me a voz e acaba o sonho… «é que a literatura… pode não estar interessada no humano.»




*** 




Pinhal. Ao longe

um homem moto-

-serra árvores.

O cão todo negro

insubmisso

destruidor de brinquedos,

cheira as ervas ao sol.

Canas

incompreendidas

e servis.

 


Sentado a ler, arquivo pessoal do autor.



A pantera

 Fragmento do romance O som dos anéis de Saturno (Editora 7Letras), 

de Priscila Gontijo

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    É hoje. Chegou o grande dia. Hoje saio daqui. Doutor R. me deu alta. Oba!


    Ao menos, foi o que ele disse. O doutor medalha de bronze em salto ornamental. Tem uma foto dele metida num porta-retrato ordinário. Doutor R. com os filhos dando saltos mortais em alguma piscina estrangeira. Grande merda!


    Afinal vou sair. Quando se envelhece aqui dentro, a morte é oferecida pela instituição. Morrer sai mais barato. Não cria despesa para os familiares. Mas lá fora temos que pagar a conta. É só isso o que me preocupa. Sou adaptável, o médico medalha olímpica disse: você é muito adaptável. Se adaptou bem às normas da instituição. Então vou me adaptar bem às normas do mundo lá fora. Claro! Uma conclusão razoável. Quero levar algo. Esse quadro, por exemplo. Até hoje não entendo muito bem do que se trata, um círculo laranja dentro de outro círculo laranja e um ovo. Olhei tanto para esse círculo que não sei como viver fora dele.


    Afinal vou sair. Vou levar a camisola. Ele disse que posso. E a escova de dentes e o leite de rosas. Você, eu não posso levar. Isso ele não disse. Afinal ele não sabe. Ninguém aqui dentro sabe. É o nosso segredo. Como vou te alimentar lá fora? E onde você vai dormir? Lá fora, as panteras não andam pelas ruas. Elas ficam trancadas. Mas venho te visitar, prometo. E trago carne fresca.


    Lá fora tem a natureza. E as calçadas. As pessoas caminham pelas ruas apressadas, disso eu me lembro. Cada uma na sua caixa de fósforo com seu marido fósforo, filhos fósforos, cães e pássaros silvestres.


    E ainda existem as mulheres grávidas. E os bebês dentro de seus carrinhos com móbiles. Os bebês ficam levemente contrariados quando uma cabeça espia para dentro do carrinho sussurrando coisas. Estão atentos a tudo, meio arregalados.


    Os pais e as mães têm muito o que fazer, são ocupados. Eles têm um trabalho, um cargo, um ofício. E existem as roupas adequadas para cada cargo. Uniformes. E o arranha-céu, o trem, o metrô cheio e dizem até que eles se empurram, uns aos outros, para baixo do vão do metrô. Afinal uma pessoa só é considerada uma pessoa se adequada às normas sociais. E essa pessoa precisa chegar rápido ao prédio oficial com seu uniforme oficial e seu sorriso oficial. Alguém mais lento atrapalha a missão. É preciso cumprir o horário e as obrigações adequadamente. Decorar as tabelas, postar foto em rede social com regularidade e sorrir sem os dentes. Assim, você recebe seu salário no final do mês. Alguns fazem uma pequena economia para comprar um carro novo ou até uma casa nova. Ah, eles possuem um hobby para os finais de semana. Não é assim que se diz, hobby? Pôquer, xadrez, aulas de dança de salão, patins, remo, salto ornamental, meditação, yoga, pilates, aulas de mandarim. Eles compram utensílios made in China. Viu só como estou preparada?


    No final do dia, vou sair por aquela porta e não preciso mais voltar. Ao menos, foi o que ele disse. Nosso medalha de bronze. Vou usar uma roupa adequada, ter um cargo respeitável e correr apressada, empurrar as pessoas para baixo do vão do metrô, porque é um salve-se quem puder danado, e preciso me salvar, chegar a tempo para receber meu salário no final do mês e guardar dinheiro e ter uma casa, filhos com nomes como João Roberto e Maria Lúcia e um marido chamado Armando. E sem pantera. Apenas cão. Eles têm cães, eles não criam panteras. Entende, agora?


    São pessoas respeitáveis, ela diz. E Aurora viveu mais tempo que eu lá fora, ela sabe. Eu nem era uma pessoa quando cheguei aqui. Ao menos eu me sentia bem pequena. Não posso dizer que antes de chegar aqui eu era o que se poderia chamar de: uma pessoa.


    Quando eu sair, a primeira coisa que vou fazer é comprar uns óculos escuros iguais ao do Doutor R. Para não enxergar direito os vãos. E uns óculos de graus como os da doutora Raquel. Para enxergar muito bem os parques. E quero ter um de lentes azuis para os dias claros demais.


    A segunda coisa que vou fazer é comprar o tal cachorro. Ele vai ter o nome que todos os cachorros têm, algo como Bob, Max ou Sun, porque quero me adaptar rápido. É preciso iniciar com algo, não é? Então, já tenho o cão para a família que virá depois. Vai vir, vai vir.


    Ele diz que posso até ser professora, porque afinal gosto muito de ler, falo bem e gosto de crianças. Sou assim, articulada. É só continuar com a medicação e voltar a estudar. Mas a carta de recomendação é para ser secretária. Já é um começo. Pergunto: Doutor, como se começa aos 40 anos? Mas isso ele não responde, apenas pigarreia como um campeão em salto ornamental pigarreia. Em seguida, diz que é só atender telefonemas e ser educada.


    Eu sei ser educada.


    Não, aquilo não foi muito educado, mas já faz muito tempo. Eu ainda não tinha você.


    Nem era uma pessoa.


    Era selvagem e feroz.

 

 

 

 

A cena do romance

Priscila Gontijo conversa sobre seu romance O som dos anéis de Saturno, publicado no final de 2020 pela Editora 7 Letras. Mauricio Salles Vasconcelos conduz a entrevista com participação dos integrantes/pesquisadores/escritores dos Laboratórios de Criação. 

Romancista – autora de Peixe Cego (2016) – e dramaturga, Priscila teve inúmeras peças encenadas, entre as quais Deadline, montada em 2019. 

No momento, elabora um romance como projeto de pesquisa de seu doutorado (FFLCH/USP).


 

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